Ana Stilwell - paisalacarte.pt

O relógio avança muitas vezes de forma ingrata para quem sente uma vontade inesgotável de concretizar os seus sonhos, para quem deseja explorar e dedicar-se a mil e uma paixões. Há dias em que é difícil arranjar tempo para ir tomar duche quanto mais para realizar as coisas todas que gostava de fazer – desabafa Ana Stilwell. Mãe de quatro filhos, educadora de infância de formação, cantora e compositora, leitora compulsiva e escritora sempre que uma mensagem forte urge por ser partilhada, aficionada de escalada e de um bom programa de ski. É na ideia das prioridades temporárias – uma ideia que a sua Mãe Isabel Stilwell fez por passar à geração seguinte – que Ana encontra o conforto essencial para acalmar anseios, para equilibrar da melhor forma os pilares que sustentam e elevam a sua Vida.

E cabe à Música um lugar central e agregador. É através da Música que a comunicação flui. Que as palavras ganham forma e as histórias se escrevem. Que as memórias se arquivam e se recuperam. É através da música, inclusive, que as emoções se expressam para Ana Stilwell. Apaixonada pelo universo musical desde que a memória a acompanha, foi apenas em 2013 que se assumiu como cantora e lançou o seu primeiro álbum Take my Coat.

Já a Maternidade desenvolveu-se a um ritmo diferente. Se aquando do nascimento das suas primeira filhas Carminho e Madalena a expressão “Mãe” ainda lhe era estranha, agora, decorridos sete anos e já com a chegada da Marta e do Eduardinho, tudo o que faz começa e termina nessa pequena palavra. Se ainda se surpreende? Todos os dias:

 

Surpreende-me que seja possível adorarmos cada vez mais os nossos filhos, quando parece que é impossível amá-los mais. Surpreende-me que seja possível amar um novo filho da mesma forma. Surpreende-me que seja possível funcionar “tão bem” com tantas horas de sono. Surpreende-me a capacidade que os pais têm de “deixar de ouvir a barulheira”. Surpreende-me que os filhos perdoem tantas pequenas falhas aos pais. Surpreende-me imensamente descobrir que não há pedagogia que valha e que cada criança é mesmo tão única e tão diferente, entre si e de nós, pais, que temos de estar em constante adaptação. Surpreende-me que os pais consigam continuar a funcionar todos os dias com a sombra de que algo possa acontecer aos seus filhos…

 

Com Ana Stilwell


Mãe das gémeas Carminho e Madalena, da Marta e, muito recentemente, do Eduardinho. Como está a ser esta experiência [numerosa!] da maternidade?
Está a ser fantástica! Pela primeira vez tive um parto normal em vez de cesariana e acabei por ter uma recuperação muito mais fácil, o que me permitiu estar logo muito disponível para todos. Também porque ao quarto filho conseguimos aproveitar muito mais cada momento com o bebé. Nos últimos anos fui aprendendo mais sobre o tipo de mãe que sou, fui aceitando as minhas fragilidades na maternidade mas também as minhas forças. Com o Eduardinho já trabalhei muito da culpa e das pressões que sentia na minha forma de estar com os meus filhos. Isso permite-nos a todos estarmos bem e a mim permite-me gozar os momentos plenamente.

Após o nascimento da Marta, lançou o livro A minha mãe tem o sol na barriga! – onde aborda os sentimentos, muitas vezes contraditórios, associados à chegada de um novo irmão.  Como estão a reagir agora as manas à recém-chegada do Eduardo?
Estamos todos a habituarmo-nos a ser quatro e é óbvio que vão havendo esses sentimentos… Mas as gémeas já ajudam muito e já têm uma outra capacidade de conversar sobre as coisas – não é por terem sete anos que não sentem emoções contraditórias, mas é mais fácil conversarmos sem tabus sobre elas. A Martinha está a reagir lindamente agora. Nos primeiros dias ficou bastante “zangada” comigo mas é uma miúda que rapidamente volta a ficar bem-disposta. Presumo que quando o Eduardinho começar a “ocupar mais espaço” e a fazer mais gracinhas ela reaja mais mas, conhecendo-a, acho que será uma fase explosiva mas passageira!

A expressão “Mãe” assume agora um peso diferente daquele que assumia há sete anos, enquanto mãe de primeira viagem?
Sim, inevitavelmente… Demorei bastante tempo a reconhecer-me nessa etiqueta. Lembro-me de estranhar quando ouvia alguém a dizer “mãe” e pensava que era para mim. Hoje em dia já não é uma etiqueta, é parte de mim! Fui crescendo nesse papel e agora tudo o que faço começa e acaba aí.

“[com a maternidade] descobri uma parte de mim que não conhecia e que me fazia falta” disse numa entrevista. Que parte é essa?
Não sei se é explicável por palavras. Acho que era só uma sensação de inquietude que hoje em dia já não tenho. Acho que foi o descobrir de uma vocação.

Para além de mãe… cantora, compositora, escritora. Como se concilia tantas paixões numa só vida?
Confesso que com alguma angústia! 🙂 De facto é difícil conciliar fisicamente todos estes meus sonhos… e são sonhos muito grandes, muito importantes para mim. Há dias em que é difícil arranjar tempo para ir tomar duche quanto mais para realizar as coisas todas que gostava de fazer em relação ao disco! Mas a minha mãe sempre me passou a ideia – que gosto! – das prioridades temporárias: hoje posso ter de ficar em estúdio mais tempo, mas amanhã compenso e estou 100% para as miúdas [oops agora tenho de dizer miúdos!]. É uma questão de ir equilibrando. Por outro lado, nestes últimos dois anos tenho aprendido a deixar-me sonhar por projetos… para poder agir de forma a concretizá-los!

De que forma os seus pais, ligados ao mundo das letras e da música, influenciaram a relação que hoje tem com a arte?
Acho que acima de tudo nunca me deram a ideia de que estávamos a criar “arte”. Ou seja, a minha mãe escreve compulsivamente como forma de se expressar, o meu pai toca todos os dias, com rigor, qualidade, e disciplina pelo prazer de tocar. Por isso tudo o que eu escrevo, componho ou canto faço-o pelo prazer que isso me dá e porque preciso de me exprimir. Claro que hoje em dia penso mais no que quero que os outros oiçam ou leiam ou vejam mas isso está sempre em segundo plano.

“Só eu sei o privilégio que foi adormecer durante tantos anos a ouvir estas mãos no piano (…). Não conheço melhor pianista que o meu paizinho”. Como adormecem hoje as suas filhas?
Ah… o deitar é o nosso calcanhar de Aquiles familiar! Adorava que ao tocar piano elas adormecessem todas tranquilamente, mas só nos meus sonhos… As gémeas precisam muito de atenção plena na altura de ir para a cama: de lermos uma história aninhadinhas e de me sentirem presentes naqueles momentos antes de adormecerem. E a Martinha precisa muito de um cotovelo para beliscar! É super independente, 23 horas por dia, mas precisa de beliscar um bocadinho antes de adormecer. 🙂

Que outras memórias “musicais” de infância ainda guarda hoje com ternura?
Uma das memórias mais fortes remonta a uma viagem que fiz com os meus pais ao Porto Santo, eu devia ter nove ou dez anos e estávamos a jantar num restaurante com aquela alegria e segurança que se tem quando se está de férias em família. Havia um homem a cantar bossa nova no restaurante e como eu não parava de cantarolar – claro! – ele convidou-me para cantar. Cantei a Garota de Ipanema!  Tenho uma fotografia dessa noite e adoro olhar para ela, de alguma forma sinto-o como o início de algo que ainda não percebia bem o que seria.

… o início de um sonho?
Eu sempre quis ser cantora. Eu sabia isso dentro de mim mas demorei muuuitos anos a assumir isso para fora. Achava que não tinha essa capacidade. Talvez pelo meu feitio nunca me atrevi a sonhar “especificamente”, ou seja, a visualizar algo específico para mim.

Todo esse background musical reflete-se nos gostos e nos interesses das suas filhas?
Sem dúvida… a música faz parte delas, é tão natural como respirar. O piano, a guitarra, as notas, os acordes estão sempre “por ali” e a curiosidade natural das crianças faz com que explorem tudo naturalmente. Cantam lindamente e até a Martinha, com 2 anos e meio, impressiona pela afinação e capacidade de memorizar letras! Ainda por cima tem imensa graça porque sabe músicas super difíceis por causa das gémeas – a última é o Playback do Carlos Paião e já sabe toda!

No espetáculo De Broadway a Paris, chamou ao palco as suas filhas para atuarem em conjunto. Foi um pedido das pequeninas, aspirantes a cantoras, ou um desejo seu?
Elas adoram o palco mas por outro lado são super envergonhadas. Eu tinha feito um concerto para os refugiados onde elas e umas amigas participaram comigo para cantar o War is Over do John Lennon. No dia do espetáculo De Broadway a Paris a Carmo estava comigo no soundcheck, cantámos juntas no palco e ela perguntou-me se poderíamos fazê-lo também no espetáculo. Combinámos que eu as desafiaria e elas logo decidiriam se queriam vir ou não – sem stress! Para mim é sempre um prazer enorme tê-las a cantar comigo, mas não quero nem forçar nem bloquear.

Partilhar com os filhos as várias fases e os momentos chave do seu trabalho – desde a composição, aos ensaios e à própria atuação – é uma preocupação?
Não é uma preocupação mas é uma coisa que acontece espontaneamente… até porque muito desse trabalho é feito em casa e elas estão mesmo ali, ao meu lado. Muitas vezes estou a ensaiar e elas dizem mãe adoro essa música, ou como no espetáculo De Broadway a Paris em que eu estava cheia de vergonha de dançar e pedi-lhes mil vezes para serem o meu “público” enquanto ensaiava os passos.

Foram muitas as músicas que compôs e dedicou aos seus filhos?
A primeira que fiz – e que está no álbum – chama-se Keep you smiling e é uma espécie de “oração” em que pergunto a Deus se ele tem a certeza do que está a fazer ao enviar-me dois seres perfeitos para tomar conta. Confesso na letra o meu medo de ser só uma “miúda que vai falhar”, mas no refrão falo sobre como vou tentar sempre, sempre, manter o sorriso delas. Para a Martinha fiz a primeira música em português da minha vida – vai sair no próximo álbum e estou muito orgulhosa dela, chama-se Fiz-te a Ti. E agora é bom que saia uma música para o Eduardinho senão já sabemos que vai acabar na psicoterapia a queixar-se de que foi  o único sem música ahahah!

E qual a música que espelha a vossa dinâmica familiar?
Ui… isso depende muito dos dias! Eu tenho um hábito constante de, consciente ou inconscientemente, começar a cantar músicas cujas letras expressam o que estou a sentir no momento – é muito útil para o meu marido perceber quando estou mesmo chateada! Por isso, quando o caos está instalado, há brinquedos por toda a parte e todas decidem dizer “não” a qualquer coisa, a banda sonora será por exemplo a  Crazy, de Gnarls Barkley, outras vezes quando já são 7h da manhã e um deles não dormiu a noite toda é mais You shook me all night long!.  Mas a maior parte das vezes, felizmente, diria que vivemos ao som da Happy do Pharrell Williams ahahah! Claro que todas as noites quando as adormeço a música que passa sem parar na minha cabeça é o Slipping through my fingers dos Abba – do filme Mamma Mia!

As mensagens que partilha através das redes sociais são muitas vezes passadas musicalmente. A música é a sua forma de comunicação preferida?
É. É mesmo! E é por isso que a letra para mim é tão, tão importante. Porque sempre que preciso de dizer alguma coisa, seja por estar zangada, triste ou feliz, é em forma de música que me consigo expressar melhor.

Uma boa música requer uma boa letra?
Acho que uma boa música tem que ter uma letra que toque, tem que contar uma história. Ajuda se surpreender em termos de harmonia no entanto, por vezes mesmo as que não surpreendem nada, mesmo as que são dois acordes repetidos ao infinito com uma letra extraordinária, são músicas fantásticas… mas acho que é impossível definir à priori o que é uma boa música.

E quais são as principais inspirações musicais? Qual o seu álbum de eleição?
O meu álbum de eleição é qualquer um de Leonard Cohen! Sou obcecada. Mas os meus gostos são muito variados…. Com o meu pai aprendi todos os standards de jazz, bossa nova e música clássica; com a minha mãe apaixonei-me pelo Pedro Abrunhosa, pelo Rod Steward e por Simon and Garfunkle; com as minhas amigas e namorados devo ter passado por tudo, desde as Spice Girls aos Fonzie. Comigo as músicas ganham rapidamente uma etiqueta emocional, passam a ser memórias – o que faz com que por vezes goste de ouvir as coisas mais estranhas. Mas na verdade foi com o Rui Guerreiro, um técnico de som fantástico, que conheci a minha grande inspiração: a Devon Sproule, uma cantautora de folk/country americana. Depois é impossível não me inspirar com os maravilhosos cantautores portugueses da atualidade, como a Luísa Sobral, o João Só, o Miguel Araújo, o Zambujo, enfim…

Como educadora de infância de formação, e também como mãe, qual o potencial da música no desenvolvimento dos bebés e na educação das crianças?
O potencial é mesmo enorme… há estudos que mostram como pode ajudar a desenvolver várias capacidades. Há também muitos trabalhos na área da musicoterapia que acabam por mostrar o poder da música. Podia referir vários benefícios mas, sinceramente, preferia que todos os pais e filhos ouvissem música “porque é bom, porque sabe bem” e não por um aspeto “pedagógico” qualquer! Em relação às escolas já é diferente… Deveriam mesmo ter formação e consciência de que a música é uma ferramenta muito importante, não só para a área da música mas também de forma integrada com as outras disciplinas como facilitador da aprendizagem.

Como se conjuga a vida profissional, especialmente quando se está em digressão, com a vida familiar?
Eu tenho a sorte de ter um marido espetacular e que é o pai mais presente possível e só isso permite-me estar 100% descansada! Para além disso, ainda tenho a sorte de ter avós, tios e avós-emprestadas fantásticos, todos prontos para ajudar quando é preciso. Por outro lado, com o Eduardinho só preciso de um porta bebés e de uma boa dose de descomplicação porque ele ainda é muito portátil e dá para ir a todo o lado! 🙂

Caso algum dos seus filhos deseje seguir uma carreira musical, que conselho a mãe cantora e compositora dará?
Há um pedagogo chamado Ken Robinson que diz que é impossível preparar os miúdos para o futuro porque não fazemos ideia de como esse futuro vai ser. A única hipótese é educá-los na criatividade para que tenham a capacidade de serem flexíveis e criativos a encontrar respostas a qualquer desafio que lhes surja. É isso que tento fazer. Não faço ideia se vão querer seguir uma carreira na música ou não e também não sei como será o panorama musical nessa altura. A única coisa que tento passar em relação a este mundo “artístico” é que não há “boa e má música” nem “boas e más vozes”, embora haja sim afinação e desafinação. Quero que elas saibam que os juízos e as avaliações nos programas de televisão musicais – independentemente de gostarmos de ver – são totalmente subjetivos e são em relação ao que procuram ali! Quero ir mostrando e desmistificando esta ideia de “ser conhecido”  ou “de nos expormos na Internet”, com as vantagens e desvantagens que isso tem. Por outro lado acho que pelo exemplo vão percebendo que mais do que ter uma carreira, ou mais do que a remuneração, devemos fazer aquilo que nos apaixona e nos faz feliz e esse é o melhor “conselho” que lhes posso dar.

 



Muito obrigada Ana, ficamos a aguardar o próximo álbum!

P.S. Acompanhem as muitas mensagens partilhadas pela Ana Stilwell. Aqui fica uma bem especial dirigida a todas as surper-mães: 😉