o amor e o desenvolvimento infantil

João Luís Bucho | Post #2
Doutor em Psicologia. Mestre em Criatividade e Inovação

 

Introdução:

Ao iniciar este trabalho de colaboração com o blog, deparo-me desde logo com um número infindável de interrogações, hesitações e dúvidas, sobre qual o tema a tratar. Lembrei-me da posição que muitas das vezes, os pais se encontram perante os comportamentos, os actos e os gestos dos filhos, a que por vezes têm dúvidas e não sabem responder, tendo de se desmultiplicar para arranjar a melhor solução, aquela que se adapta da melhor forma, ao problema e à questão levantada.

Neste sentido e para desenvolver o comentário reflexivo, terei como referência o tema de um livro, que nasceu de um programa transmitido na Rádio Comercial, em 1984 e que resultou dos diálogos entre João dos Santos e João Sousa Monteiro, com o nome: “Se não sabe por que é que pergunta?”.


Desenvolvimento:

João dos Santos foi um ilustre médico e pedagogo Português, que nos deixou uma vasta obra, sobre como compreender o universo infantil, quer no campo da saúde quer no campo educativo. No livro “Se não sabe porque pergunta?”, realça a importância da arte de ouvir e aprender, através da conversa dos outros.

No mundo actual, tão rápido, volátil e transitório, muitas das vezes nem temos tempo nem disponibilidade interna para escutar os outros, neste caso os filhos.

Graças ao avanço da técnica e da tecnologia colocam-se à disponibilização dos pequenos petizes, telemóveis, portáteis, ipad e consolas onde podem divertir-se através do mundo mágico digital, dos bonecos, dos jogos, dos sons, das formas, das cores e dos brilhos.

Actualmente poucas são as crianças com menos de 10 a 12 anos que não têm um telemóvel ou que não utilizam o telemóvel dos pais, envolvendo-se horas e horas a fio com o digital, num monólogo virtual, electrónico, embora por outro lado, cada vez seja maior o número de especialistas: pediatras, psiquiatras, psicólogos, neurologistas e educadores, que reconhecem que a sua utilização é contra indicada e até mesmo nefasta, para o desenvolvimento das crianças, assim como as próprias autoridades informam que é um perigo para as crianças, sendo uma potencial porta de entrada para os inúmeros perigos do mundo da internet, onde tudo é permitido, já que são ainda tão indefesas e imaturas. No entanto, assiste-se que cada vez mais os pais têm vindo a adaptar este instrumento, apostando neste tipo de estratégia, de forma a ocupar e a sossegar as crianças e aliviar o seu trabalho como pais.

jovens e a dependência do smartphone

As crianças ainda nem sequer desenvolveram a noção de verdadeiro nem de falso, o bom do mau, o real da fantasia, daí que colocá-los perante uma tela que lhes permite tudo, a um tempo supersónico, poderá tornar-se num grave problema.

Embora os pais devam ser e exercer o papel de educadores, de orientadores, sendo mediadores da relação com a tecnologia, através da sua correcta utilização, colocando regras e balizando limites, tais como: quais os horários e locais de casa definidos, para a sua utilização, qual a idade a partir da qual podem ter acesso aos diversos meios, atendendo às suas habilidades e competências a desenvolver tendo em conta a sua fase de desenvolvimento infantil, na maioria dos casos isso não acontece, da melhor forma.

Da falta de recursos colocados à disposição da criança, do rigor, da falta de flexibilidade e da proibição, dos tempos antigos, de grandes dificuldades e superações, passamos para tempos modernos, caracterizados pela existência e pela proliferação de vários recursos disponíveis, que se encontram com relativa facilidade à disposição de todos, torna-se difícil aos pais dizer não às exigências e aos caprichos, dos impulsos dos filhos. Associado ao facto de vivermos num espaço e tempo onde todos nos querem fazer crer que tudo é pedagógico e didáctico, sendo por isso importante, para o desenvolvimento da criança, devendo-lhe ser facilitado desde tenra idade.

Posso partilhar convosco, uma imagem que me causou bastante desconforto e incompreensão, quando há alguns meses atrás num conhecido centro comercial em Lisboa, estava a jantar na zona da restauração e na minha frente estava uma mãe que de forma desesperada tentava dar de comer a uma criança que não aparentava ter mais de dois a três anos, enquanto na sua frente, o pai lhe chamava a atenção, colocando-lhe o Ipad, na frente ao que ela desesperadamente queria agarrar, para que a mãe conseguisse cumprir a árdua tarefa que estava a ser dar-lhe o alimento.

Voltando a João dos Santos, este ao abordar a questão da comunicação entre pais e filhos, entre as crianças, dizia que normalmente não estamos dispostos a ouvir, o que o outro nos quer dizer, falamos tão depressa e tanto, que os silêncios nem sequer são respeitados, daí podemos ouvir, mas não compreendemos nada daquilo que nos foi dito.

saber ouvir as criançasO tema do livro indica-nos isso mesmo, “Se não sabe porque é que pergunta?”, reflecte que devemos parar e ouvir, respeitar a autenticidade do outro. Porquê bombardear logo com perguntas? Porquê oferecer logo o telemóvel, ou o Ipad para a criança ficar “vidrada” perante o ecrã de boca aberta, para a mãe lhe poder depositar a comida na boca?

Porque não estar atento à criança, ao diálogo do ouvir, ouvir antes de questionar?

É necessário conseguir parar e perceber o que as crianças lhe estão a dizer, os seus segredos e mistérios, aprender com eles, estar disponível para eles e deixar-se surpreender pelas acções, pelos gestos, pelas iniciativas destes.

A arte de saber ouvir, de João de Santos, pode aqui ser materializada pela arte de amar e ter paixão pelos filhos!

Da arte de ouvir, da arte de construir em silêncio, da arte de se surpreender através da construção, da criatividade criadora e mágica, da arte do relacionamento colectivo e cooperativo, passamos para a arte de falar sem parar, do mundo dos sons, dos ruídos e dos brilhos, das imagens, para o mundo das telas e dos ecrans, da ausência dos silêncios, do mundo virtual e do social individualizado, narcísico, consumista e racionalista.

Se no tempo dos nossos pais, a brincadeira era efectuada sem hora, nem lugar pré-determinado, dentro e fora de casa, sem a necessidade da presença de profissionais, animadores, hoje existem horas e lugares próprios para se brincar, espaços e animadores que se contratam para a realização das festas infantis. Se até há bem pouco tempo quase todas as mães guardavam religiosamente dentro das suas malas, uma pequeno estojo/carteira,  com lápis de cor, alguns já tão pequenos e desgastados pelo tempo, que até nos custava a utilizar, mas que de forma alguma os deitávamos fora, desenhando rabiscos, criando figuras, formas e figuras, em qualquer superfície de papel, ou outra que encontrávamos, tipo toalha de mesa ou toalhete, hoje as mães dentro das suas carteiras e malas apenas têm o telemóvel e o Ipad, no meio dos demais acessórios.

Se rapidamente inventávamos e criávamos com as nossas próprias mãos, bolas de jornais e de trapos velhos, carrinhos e fisgas, com pedaços de madeira, bonecas, cubos, jogos de esconde-esconde e muitos outros, explorando os diversos materiais, construindo espaços de brincadeira, ocupando o tempo e divertindo-os, hoje a realidade é diferente e isto não acontece.

Actualmente tudo se encontra já feito e produzido, à nossa disposição, de diferentes tamanhos, feitios e de diferentes preços, levando cada vez mais a um consumismo exacerbado, que desencadeia nos cuidadores, nos pais, o desejo à compulsão da compra e nas crianças o desejo de ter, de usar, de possuir.

A criação vai sendo afastada do dia-a-dia da criança e esta torna-se numa consumidora compulsiva de imagens, sons, jogos e demais materiais. Por outro lado, o desejo da limpeza, da arrumação e até da segurança, leva muitos pais a afastar as tintas, os desenhos, o barro, a terra, o contacto com a natureza e com os animais, os jogos do dia-a-dia das crianças, com o medo quase obsessivo dos meninos não se sujarem, não estragarem a sua roupa e não se aleijarem. Trata-se quase de uma domesticação das crianças.

as crianças e a tecnologia

De crianças criadoras e criativas, activas, sonhadoras e transformadoras por natureza, passam a crianças consumidoras, passivas, impulsivas e intolerantes, por aprendizagem.

O mundo real, facilmente se transforma num mundo virtual, apresentam-se figuras, formas e desenhos já efectuados, já prontos, com os quais a criança tem de interagir. Sem qualquer trabalho, sem qualquer esforço, sem imaginação, nem tão pouco criatividade. Facilmente se compreenderá que desta forma sem estimulação, não existirá desenvolvimento das diversas competências, nem das diversas inteligências, de que Howard Gardner nos fala.

Facilmente e tendo em conta os diálogos de João dos Santos, se compreenderá que se não conseguirmos desenvolver a capacidade de estar com o outro, de o ouvir, deixando-o falar livremente, sem reservas nem condicionantes, de respeitarmos os silêncios, de valorizarmos uma comunicação aberta, que não desvalorize nem ignore o nos é dito, não conseguiremos compreendê-lo, na sua verdadeira essência.

No caso dos pais, estes terão de saber ouvir e entender a linguagem das crianças, que é feita de sons, palavras, de silêncios, mas também de gestos, de expressões faciais e de acções. Dito de uma outra forma, se não houver envolvimento, não existirá desenvolvimento da criança.

Acredito que o envolvimento não passará pela acomodação dos pais e pela presença do Ipad, no momento de se dar de comer a uma criança de 2 a 3 anos, nem tão pouco pela presença de uma criança tão pequena, num lugar com as características de um centro comercial, um espaço tão amplo, cheio de pessoas, com diferentes estímulos, sons e muita agitação e que irão desencadear nele, certamente, estados de muita confusão, alguma agitação e até alguma irritabilidade e choro.

O envolvimento, terá de passar pela aceitação e pelo reconhecimento da necessidade de se criar uma relação de boa qualidade, assegurando a disponibilidade empática dos pais, a aceitação e a tolerância, sem esquecer o carinho, a ternura e o amor incondicional, que deverá estar presente em todas as diversas fases de vida.

E acredito também, que a dificil tarefa de educar, será em muito facilitada se recorrermos aos chamados mediadores expressivos e criativos, neste caso aqui falado, dos lápis de cores, facilitando a expressão pictórica da criança, promovendo o desenvolvimento da acção – emoção – pensamento e desenvolvendo a sua capacidade de pensar, de solucionar problemas, com criatividade e imaginação.

Através da imaginação, abrem-se as portas da criatividade, já que nos permite inventar, antecipar situações, conceber projectos e sonhar…

Ouçamos o que Lobo Antunes em tempos nos disse:

Julgo que me tornei escritor porque em criança o meu pai me curava as gripes com sonetos em lugar de aspirinas: pela parte da boca que o cachimbo não ocupava saíam ao mesmo tempo fumaças e tercetos cujo efeito medicinal, somado às papas de linhaça da minha mãe, me mergulhavam a pouco e pouco numa espécie de coma rimado, do qual me não libertei totalmente (…)”

[António Lobo Antunes, in Segundo livro de crónicas]

 

 


Referências

 Lobo Antunes, A. (2009). Segundo livro de crónicas. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Gardner, H. (1994). Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. Porto Alegre: Artes Médicas.

Santos, J. & Monteiro, J. S. (2000). Se não Sabe Porque é que Pergunta? Colecção: Pelas Bandas da Psicanálise. Lisboa: Assírio & Alvim

 

Fotos de: Robert Cheaib; Laura Aziz; Gwenael Piaser