pai e bebé

António Silva Filipe | Post #2
Médico Pediatra

 

Com o aproximar da época natalícia surgiu-me a ideia de partilhar convosco uma constatação da minha prática clínica. Não se trata de um assunto científico mas apenas de uma reflexão sobre a família e as alterações que se têm vindo a verificar.

Ao longo dos tempos os cuidados aos recém-nascidos e às crianças em geral, particularmente as mais pequenas, eram prestados essencialmente pelas mães, ficando para o pai uma função mais secundária, menos próxima do filho e, provavelmente, menos vinculativa. Por essa razão, a criança teria, ao longo do seu crescimento, maior influência da mãe quer do ponto de vista da sensibilidade quer do modo como perceciona o mundo e se envolve nele. Logo, apesar de em adulto se atingir uma personalidade própria, esta não deixaria de ter uma certa visão mais maternal da vida.

Nos últimos tempos tem-se vindo a constatar que o principal prestador de cuidados, nesta faixa etária, passou a ser maioritariamente o pai. Nesta sequência, questiona-se qual será a maneira como as crianças vão percecionar a vida, num futuro próximo. Será que não ocorrerão grandes modificações no desempenho das suas atividades, agora que a figura paterna está muito mais próxima?

E as crianças que têm apenas o pai ou a mãe como prestador de cuidados? E as crianças com dois pais ou duas mães? Será que a falta da figura feminina ou masculina irá influenciar as suas vivências futuras?

Não estou a fazer juízos de valor nem a inferir falta de amor e/ou de acompanhamento por parte dos progenitores de qualquer uma destas situações, pois tenho a convicção de que a afetividade existe em abundância permitindo o desenvolvimento global da criança. A reflexão consiste apenas em tentar perceber se as crianças de hoje irão percecionar o mundo da mesma forma, tendo-se deslocado basicamente a função do prestador de cuidados.

Não se põe em questão o futuro das crianças quanto à sua felicidade, estabilidade e integração na vida adulta, mas sim se a sociedade será diferente devido às diversas sensibilidades que acompanharam o seu desenvolvimento.

 

Foto superior de: VisualHunt