2 livros sobre a vida e o direito a ela

Um bom livro deixa marca no leitor. Fá-lo refletir. Transforma-o. E a mesma interpretação faço para o cinema, para a fotografia, para a arte…

Carta a um menino que não nasceu e Diário 1941-1943, são duas obras que li muito antes de equacionar ter filhos. Ainda sim, deixaram marca… uma marca que, embora nunca leve, revelou-se muito mais profunda do que a primeira leitura fazia crer. Dois livros, de duas notáveis pensadoras, que me levaram a questionar algumas ideias pré-formadas que tinha sobre a vida, o direito a ela e o direito a poder decidir sobre ela.

Ambas as escritoras – Oriana Fallaci e Etty Hillesum – refletem sobre a existência. Sobre as implicações de trazer ao mundo um novo ser, confrontando sentimentos puros de uma gravidez anunciada em contraposição à realidade social em que se inserem e onde seriam recebidas essas promessas de vida.


Diário 1941-1943
Diário 1941-1943
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Etty Hillesum, judia em pleno regime nazi, não poderia ter vivido em mais desumana realidade… Como seria trazer ao mundo uma criança frágil e indefesa, mais um alvo do antissemitismo? É possível compreender as suas palavras, apesar da crueza com que são escritas. É impossível julgar a decisão tomada. Mas podemos e devemos refletir sobre ambas – as palavras e a decisão – porque estamos a falar do princípio basilar da existência. Do valor máximo da vida: a própria vida.

 

Tenho a sensação de que estou a salvar uma pessoa. Não, isso é ridículo: salvar a vida a uma pessoa afastando-a violentamente desta vida. Quero poupar esse vale de lágrimas a alguém. Vou deixar-te ficar na segurança de não vires a este mundo, pequena criatura desenvolvendo-se dentro de mim, e agradece-me por isso.”

[Etty Hillesum, Diário 1941-1943]

 

 


carta a um menino que não nasceuCarta a um menino que não nasceu.

Um livro que Oriana Fallaci dedicou a todas as mulheres que se debatem entre o dar a vida ou negá-la. A autora não esconde a crueldade da natureza humana – “Nunca encontrarás um sistema, uma ideologia capaz de mudar o coração dos homens e extirpar-lhe a maldade”. A autora evidencia a desigualdade social,  alertando o filho em gestação que “se fores rico, o frio passa a ser uma brincadeira, porque compras um casaco de peles, acendes o aquecimento, e vais fazer esqui. Em contrapartida, se fores pobre, o frio é uma maldição, e aprendes a odiar a própria beleza de uma paisagem branca sob a neve”.  Chega inclusivamente a questionar “terás realmente de vir a conhecer semelhantes injustiças, tu que vives aí sem servir ninguém?”. Ainda assim, conclui que nada é pior do que o nada.

Mesmo quando estou infeliz, penso que não gostaria de não ter nascido porque nada é pior que o nada. (…) até nos momentos em que choro sobre os meus fracassos, as minhas desilusões, os meus tormentos, chego à conclusão que o sofrimento é preferível ao nada.”

[Oriana Fallaci, Carta a um menino que não nasceu]

 


Dois livros que merecem ser lidos. Duas obras que extravasam o âmbito da maternidade. Duas viagens interiores sobre a essência humana.