Metodologias expressivas - o papel dos pais - psicólogo João Luís Bucho

João Luís Bucho | Post #4
Doutor em Psicologia. Mestre em Criatividade e Inovação

 

Nos últimos artigos tenho efectuado vários comentários sobre a importância da promoção do desenvolvimento da criatividade, junto das crianças mais novas. A criatividade é algo que é natural nestas idades e com o tempo vai ficando inibida, por vários motivos, quer a nível endógeno, do foro individual, quer a nível exogéneo, tendo em conta o contexto e o meio social. 

Tal como um músculo, para se desenvolver, a criatividade exige treino. Como um diamante em bruto, tem de ser lapidada, ou seja, tem de ser constantemente trabalhada. Ou como nos indica Saturnino de la Torre, a criatividade é como o grão de trigo, só produz riqueza quando é cultivado. 

Neste sentido, neste artigo de opinião será abordado a educação para a transformação, através da ajuda de um pequeno esquema construído para o efeito e onde se valoriza mais uma vez a fantasia, o imaginário e a criatividade nas crianças. 

 Como? De uma forma simples, através da linguagem universal da criança. Do brincar! 

 


Todos nascemos com este enorme potencial de liberdade criativa, que vai sendo moldada, condicionada e inibida, ao longo dos anos. Não brincar é ficar preso, limitado, diminuído nas suas diferentes capacidades, talentos e competências, não possibilitar a expansão e o desenvolvimento da manifestação do ser. Através do brincar se manifesta a sua verdadeira singularidade, a originalidade do ser manifesta-se através do brincar. 

No entanto, verificamos que a própria sociedade, a escolarização, os pais, muitas das vezes restringem ao máximo os espaços de brincar e a brincadeira quase que passa a ser considerada interdita e é encarada como um tabu.  

Valoriza-se cada vez mais o pensamento dito convergente, aquele que é racional, analítico, lógico, objectivo e concreto, fornecendo apenas uma resposta a um determinado problema, ao invés do pensamento dito divergente, que é plástico, mais adaptado e independente, mais criativo, promovendo várias soluções para o mesmo problema. 

Segue-se então o pequeno esquema para melhor leitura, da lógica de aprendizagem focalizada na criança e no seu desenvolvimento: 

PAPEL DOS PAIS - PSICÓLOGO João Luís Bucho

Nesta sociedade racionalista, hiper-mega-acelerada e stressada, tudo decorre a uma velocidade estonteante e a própria educação é um bom exemplo disso. Os pais deixam de ter tempo para os filhos, dando lugar a amas, creches, infantários, escolas, ATLs, inglês, natação, equitação, catequese, etc. 

O tempo dos petizes está demasiado ocupado e preenchido, que não lhes deixa quaisquer espaço para poderem brincar, para estimularem a fantasia, a imaginação e a criatividade. Actividades a mais é sinal de tempo livre a menos por parte das crianças e de menor preocupação e maior liberdade por parte dos pais.  

Hoje, o importante é estimular o aprender a saber, a conhecer, em detrimento do aprender a fazer. Interessa dotar a criança, desde a mais tenra idade, do maior número de conhecimentos, actividades e modalidades para que esta aprenda e adquira o maior conhecimento possível das coisas, contudo esquece-se que é através do fazer, do sentir, do jogar, do brincar que este adquire conhecimento de si, dos outros e da realidade.  

Metodologias expressivas - educação - psicólogo João Luís Bucho

É importante que os pais valorizem os diversos tempos e espaços com os filhos, que brinquem que tenham tempo para investir na relação afectiva, próxima com as crianças, de forma a poderem construir em conjunto, para poderem favorecer o despertar do potencial investigativo, crítico e criativo dos seus filhos. É na relação dialógica e dialéctica, pais-filhos que se educa. 

Brincar é como que a garrafa de oxigénio dos mais pequenos, é através do brincar que os mais pequenos respiram e desenvolvem a componente cognitiva, a afectiva, emocional e motora. Brincar faz parte fundamental do seu desenvolvimento.  

Através da biologia do conhecimento, sabemos que conhecer é viver e viver é conhecer. O brincar faz parte do viver, para a criança. Através do brincar a criança conhece e aprende. Daí ser importante, primeiro vivenciar o fazer para se construir o saber. No entanto, hoje ensina-se o saber e não se ensina o sentir. 

É através do brincar, do prazer e da alegria que o espírito lúdico desperta, que as crianças conseguem ser elas mesmas, onde se conseguem envolver emocionalmente, onde ganham e perdem, onde superam dificuldades e onde podem sonhar com a vida e sobre a vida. Através do brincar pensam, sonham, questionam e criam de forma activa e construtiva. Brincar apela ao espírito lúdico, cooperativo, critico, democrático, ecológico, vivencial e reflexivo. Desta forma aprendem a lidar com as suas expectativas, medos, frustrações e desejos.

Neste sentido, importa investir na área das expressões, dos jogos, dos jogos de faz de conta, das tradições, da arte, da fantasia, da imaginação e da criatividade, superando barreiras, conquistando novos objectivos e superando desafios. Trata-se de estar aberto à experiência, do tempo, da disponibilidade de aceitar, escutar e estar com os filhos. Trata-se de criar espaços amorosos, de partilha, troca de experiências, de ouvir, cheirar, ver e tocar.

Importa deixar a criança ser ela mesma, não apressar as diversas etapas de desenvolvimento, deixando-a ser um elemento activo, participativo, intérprete e protagonista, criador e criativo. Importa não os pressionar, já que a pressão bloqueia e inibe a espontaneidade, a criatividade e a liberdade em agir e descobrir. Ao contrário, sem liberdade criativa surgem os habituais receios, os medos, as inseguranças e as desvalorizações. Todas as crianças são diferentes, daí que não existem manuais certos, o que para uns pode ser simples e fácil, para outros poderá ser mais difícil e até aterrador.

Brincar é fantasiar papeis, interpretar e dramatizar personagens, é colorir o mundo interno, sem problema em se sujar, dançar a valsa ou o samba, cantar o fado ou música pop, experimentar tocar os instrumentos que desejar, viajar dentro e fora de si-mesmo.

Mas também é ter tempo para estar só. Sim, estar só!

Ter a capacidade e a disponibilidade de nada fazer e de tudo fazer.

Actualmente temos tudo à nossa disposição já pronto, temos o mundo na palma da mão, basta olharmos para proliferação de jogos já criados, os jogos digitais, desde a idade pré-escolar,  tal como os vídeo jogos, a playstation, o que faz com que os adultos rapidamente se esqueçam dos jogos ditos tradicionais, que eram transmitidos de geração em geração, portadores da sua mensagem cultural. Jogos como a macaca, o jogo do pião, a cabra-cega, os berlindes, a carica, a malha, a estátua, o lenço, saltar à corda, a apanhada, as escondidas, o saltar ao eixo, o mata-mata, a corrida dos sacos, entre muitos outros, que outrora os pais brincavam na sua infância.

Na sociedade consumista e capitalista, o negócio prolífera, basta olharmos para a diversidade de jogos, bonecos, utensílios e demais entretimentos para as crianças. Se olharmos com atenção à palavra negócio, facilmente poderemos compreender que se trata de negócio = negação do ócio. O ócio, desde tenra idade é colocado de parte, é colocado de lado, desvalorizado e marginalizado, no entanto é importante, para as crianças, como para os adultos. É importante a estimulação de um espaço para se poder estar em silêncio, para se pensar, sonhar, para se aprender a desligar de tudo e de todos, estar atento ao nosso interior, ao que se passa com os outros, com o meio. Trata-se de estimular espaços, para pais e para os filhos, poderem desacelerar da vida do dia-a-dia, para poderem ter a capacidade de olhar, tocar, sentir e de observar.

São momentos extremamente importantes, para que as crianças possam descobrir nossas coisas, novas realidades, fazer novos questionamentos e experimentações.

De tudo o que vem sido dito, realça-se a importância da forma como os pais preparam e organizam a gestão do seu tempo livre e dos seus filhos. Brincar é a única forma que as crianças mais pequenas dispõem para poder aprender. Através do brincar as crianças interagem, comunicam, socializam, crescem e desenvolvem-se.

É importante o papel atento, curioso, disponível, empático, afectivo e próximo dos pais. Educar é um acto de coragem, mas também é um acto apaixonado. Educar é um acto de rebeldia, em aceitar os filhos, as suas traquinices e rebeldias, as suas birras, as desobediências, as guerras, o mau feitio, mas também é um acto de conhecer e transformar, saber qual a melhor forma para superar os problemas, para superar-se a si mesmo.

Educar é ser criativo, implica ser livre, ter a capacidade de olhar e multiplicar diferentes perspectivas e alternativas, para se conseguir atingir um determinado objectivo, perante um desafio. Implica ousar, arriscar, questionar, ser aventureiro e rebelde. Trata-se de ser flexível, aceitar que o seu filho possa ser diferente, aceitando os erros, privilegiando a sua riqueza interna, a sua subjectividade individual, ajudando-o a superar rotinas e esquemas rígidos. Deixar-se surpreender, olhar com outros olhos para ele, oferecendo-lhe novas formas para contornar e solucionar os problemas.

O papel dos pais - educação - psicólogo João Luís Bucho

Assim contribuirá no seu desenvolvimento integral, encontrando espaço, tempo e principalmente disponibilidade e aceitação para poder estar a seu lado, brincando, jogando, reflectindo, dialogando, compartilhando ideias, sonhos e fantasias, aprendendo com os seus filhos e facilitando-lhes o desenvolvimento de novas aprendizagens.

Impedir a brincadeira nas crianças será em termos metafóricos, o mesmo que cortar a crista ao galo português. Certamente que o galo ficará diminuído e deixará de cantar!

Será que os pais desejam que os filhos percam a sua liberdade expressiva e a confiança para poderem ter a capacidade de cantar, de dançar, de pintar, de representar?

Por outro lado, é tempo de se abandonar a postura tradicional de não se aceitar o erro: o erro deverá ser corrigido e não punido, do não, de não se deixar brincar, não se deixar fazer, não deixar tocar, não questionar, não falar. As crianças ainda continuam a ser educadas, na época da inibição do não fazer, do não mexer e não tocar, do medo e da repressão. É necessário a deseducação do não!

Sendo o ser humano, um ser imperfeito, inacabado, em constante transformação, é necessário que as crianças, desenvolvam as suas diferentes capacidades, em liberdade, sem medo em errar, que possam vivenciar o fazer, para conhecer e poder transformar.

Torna-se necessário estimular-se a pedagogia da aceitação, do amor e da cooperação, ao invés da pedagogia da repressão e da competição.

 


É tempo de terminar, questionando:

– Está pronto para aceitar o desafio e a diferença?

– Está pronto para ser Pai/Mãe?

Resposta:

Se não estiver, não desespere, pois trata-se de um enorme desafio, que se treina e se aprende. Basta mergulhar ao interior de si-mesmo e deixar ser você mesmo. Basta tentar e ousar experimentar, sem receios nem defesas.

Logo verá diferenças!

Boa sorte!

 

 


Bibliografia consultada: 

De La Torre, S. (2007). Aprender com os erros: o erro como estratégia de mudança. Porto Alegre: Artmed Editora.

Maturana, H. E. & Varela, F. (1995): A árvore do conhecimento. São Paulo: Editorial Psy. Consultado em: http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana

 

Fotos de: Daiga Ellaby; Andrik Langfield Petrides; Kelly Sikkema; Michał Parzuchowski; Aaron Burden; Christian Langballe;