Pais pelo mundo - Ser mãe em Portugal - áfrica do sul

A viver em Portugal há seis anos, Gabrielle Parrinha não se arrepende um só dia da escolha que fez, da decisão que tomou quando deixou o coração falar mais alto. Nasceu em África do Sul, viveu e trabalhou em 10 países diferentes, mas a determinado momento sentiu que chegara a altura de pegar na sua bagagem e estabelecer-se naquele que é o país mais ocidental da Europa e o país de origem do seu companheiro.

Aqui casaram, aqui tiveram o seu primeiro e único filho e aqui vivem os três em conjunto há cerca de três anos e meio. Uma história de amor que nasceu numa ilha reserva natural no sul de Inglaterra, mas que é em Portugal que ganha fortes raízes!

E como é ser mãe neste nosso país, aos olhos de quem nasceu e cresceu a mais de 8.000 Km de distância? Aos olhos de quem visitou mais de 110 cidades e trabalhou como Professora de Inglês enquanto língua estrangeira numa dezena de outros países? Aos olhos de quem contactou com múltiplas culturas mas que, ainda assim, chama “Home” – orgulhosamente – a este nosso cantinho? Gabrielle fala-nos dos principais desafios que encontrou, das dificuldades que sentiu e de alguns dos factos mais surpreendentes no exercício da parentalidade em Portugal.

 

Por Gabrielle Parrinha:


O exercício da parentalidade é uma  constante navegação em águas desconhecidas, uma experiência deveras emocionante mas que se pode revelar um pouco desanimadora quando te encontras num país estrangeiro. Independentemente de te considerares muito bem preparada, há uma série de decisões que têm de ser tomadas em conjunto… e estas são apenas as primeiras de uma corrida na montanha russa, denominada parentalidade. Não há nada como ter um filho para enfatizar as diferenças culturais do casal.

 

1. (Des)Informação e o stress associado

O mundo global em que vivemos está carregado de informação sobre gravidez e maternidade e, por conseguinte, toda a gente parece disposta a opinar/aconselhar sobre o mais pequeno aspeto com elas relacionado. Em Portugal não foi diferente, mas o facto de ser estrangeira e de aqui viver há relativamente pouco tempo funcionou como uma agravante do stress quando se impunha a necessidade de tomar uma decisão. Por mais que me tenha preparado interiormente, por diversas vezes senti-me perdida, arrebatada até por esse mar sem fim de dicas e conselhos.

Diz-se que a morte, o divórcio e a mudança de casa são três dos acontecimentos mais stressantes pelos quais  podemos passar ao longo da nossa vida. Eu diria, contudo, que ter um filho num país estrangeiro deveria ser adicionado a esta lista.

 

2. Sistema de Saúde  – dos cuidados pré-natais ao apoio pediátrico

Não tendo conhecimento prévio do sistema de saúde português, senti necessidade de consultar familiares e amigos, antes de me decidir sobre onde ser seguida durante a gravidez e o local para a realização do parto. O sistema de saúde público foi a recomendação e, por conseguinte, eu e o meu marido marcámos uma visita ao Centro de Saúde local e ao Hospital de Cascais – ficámos impressionados com as condições e com o tratamento. Como resultado, o nosso filho veio ao mundo pelas mãos de uma equipa profissional, altamente dedicada, neste Hospital. Sem surpresa, pouco tempo depois soubemos que a Maternidade tinha sido destacada como a melhor do país!

Surpreendida fiquei com a notícia de que os serviços públicos pré-natais são totalmente gratuitos em Portugal, assim como o acompanhamento pediátrico até os filhos completarem os 18 anos. Outro facto que me impressionou foi a visita das enfermeiras do Centro de Saúde de Cascais à nossa residência, com o objetivo de realizarem o primeiro check-up após o nascimento do nosso filho!

O sistema de saúde público em Portugal proporciona um excelente acompanhamento às mães grávidas, aos bebés e às crianças.

 

3. Licença de Maternidade

Uma vez que muitas recém-mães não têm outra opção senão regressar ao seu trabalho ao fim de seis meses de licença, muitos bebés são deixados em berçários a partir dessa idade. É triste as mães estarem limitadas a uma licença de maternidade tão curta… É aqui que considero que Portugal poderia tomar notas da obra que na Suécia se escreve! Felizmente tive a oportunidade de poder regressar ao trabalho apenas ao fim de dois anos e meio, altura então que o nosso filho se estreou no infantário.

 

4. A escolha do nome

O primeiro dilema que corre na cabeça de muitos pais: o nome a atribuir a um filho, o nome com o qual  será identificado toda uma vida. Assim que a gravidez nos foi anunciada, as coisas ficaram interessantes… encontrar e optar por um nome próprio que se adaptasse às diferenças culturais de ambos e que tanto eu como o meu marido realmente gostássemos, não foi tão linear como inicialmente pensámos. No entanto, pelo facto de eu ser estrangeira tivemos a oportunidade de optar por um nome fora da lista oficial de nomes próprios admitidos em Portugal e foi o que fizemos! Este é um assunto sobre o qual nunca pensei despender muito tempo, mas que acabou por requerer longos pensamentos e saudáveis discussões familiares.

 

5. Le Familia

Em todas as minhas viagens, estou ainda por encontrar uma comunidade onde os bebés, as crianças e a família sejam mais estimadas do que em Portugal.

Os avós aqui são fantásticos e muitas vezes são a espinha dorsal da família, os cuidadores principais dos bebés/crianças quando ambos os pais trabalham.  É fascinante ver a experiência e a interação entre gerações! Este tipo de tratamento faz eco na forma como as pessoas tratam e respeitam as outras no geral.  Como resultado, Portugal é uma nação muito amável, humilde e com grande coração! Considero Portugal um país maravilhoso para criar os filhos, para estes crescerem desde logo com bons valores e princípios.

 

6. Hora de deitar os filhos

Este é um dos pontos que, para mim, foi de mais difícil adaptação… é aquilo que normalmente designo de “dormidas latinas tardias”. O velho ditado de que as crianças devem ser vistas e não ouvidas não tem lugar aqui em Portugal, onde as crianças são parte integrante da vida familiar, festividades incluídas! Ver a pequenada fora da cama e a conviver quase até à meia-noite, é algo normal por aqui… bem, as sestas tendem a compensar as noites mais compridas! Alguns anos depois, sinto que já estou mais adaptada e menos rígida quanto a este estilo de vida. Os longos dias de verão e as agradáveis e envolventes noites são agora desfrutadas em conjunto por toda a família.

 

7. Vestuário

Gosto verdadeiramente do estilo mais conservador/tradicional com que os bebés são vestidos aqui em Portugal. Dá gosto ver os bebés e as crianças tão bem vestidas, com tecidos de qualidade, sem pressa de parecerem réplicas dos looks dos mais crescidos, como acontece noutras partes do mundo.

 

8. Alimentação

Como em qualquer cultura, a geografia acaba por ditar na maioria das vezes as preferências gastronómicas das pessoas. O nosso filho cedo foi diagnosticado com alergia à proteína do leite e, desde então, temos adaptado a nossa alimentação às suas necessidades dietéticas. Tenho também verificado, infelizmente, que as opções dietéticas disponíveis na escola pública são demasiado rígidas e pesadas para os mais pequenos – carne, peixe, calamares e cozinha tradicional cozinhada a peso são, surpreendentemente, a regra…

 

9. Espaços exteriores e atividades infantis

Este é outro dos pontos em que considero que Portugal tem ainda um caminho a percorrer: a existência de mais espaços exteriores dedicados às crianças. Brincar é  essencial ao desenvolvimentos dos mais novos e é urgente que este tema assuma a importância que merece na agenda das entidades responsáveis.

E com isto, é importante ressalvar que vivemos em Cascais, um município cosmopolita, que assume uma preocupação adicional em termos de espaços exteriores para usufruto da comunidade. Aqui, por exemplo, desfrutamos de uma biblioteca dedicada aos mais novos, localizada num jardim maravilhoso. Nestes quatro anos em que temos vivido em Cascais, muitos passos têm sido dados no sentido de proporcionar um saudável equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, muitos eventos e atividades são realizadas ao longo do ano… Geralmente, escolha não nos falta independentemente do que o clima nos reserva.

 

Há três anos e meio a viver esta aventura pela parentalidade, tanto eu como o meu  marido sentimos que estamos a colher os frutos da nossa decisão de nos estabelecermos de forma mais definitiva em Portugal. Damos valor, todos os dias, à qualidade de vida que aqui conseguimos ter enquanto família!