vanessa simões fala-nos sobre o ser mãe em inglaterra

Aos 19 anos, Vanessa Simões, à data Vanessa Marques Villa, muniu-se de malas e bagagens e atravessou o atlântico, desde São Paulo até Cascais. Nas malas carregava muito mais do que roupas e utilidades, transportava fotografias, livros e muitos sonhos.

Na Escola Superior de Hotelaria do Estoril o destino esperava-a. Ali começava uma história que ainda hoje se escreve e cujos capítulos vão aumentando. Ali conheceu o pai dos seus dois filhos. O marido português com quem tem viajado pelo mundo e com quem, desde então, partilha um projeto de vida conjunto.

Já casados, viveram em Portugal, em Inglaterra e no Bahrain. E talvez a vida os levasse a outros destinos, não fosse a chegada, há sete anos atrás, de um novo e pequeno ser ao seio familiar! Aí venceu o pragmatismo, depois de confrontados com a falta de oportunidades nos seus países de origem: qual o país onde conseguiriam reunir melhores condições para criar uma criança? Refizeram uma vez mais as malas e partiram os três para Inglaterra – a mãe Vanessa, o pai António e a filha Ana Carolina ainda em gestação. O tempo passou e, desde há um ano atrás, de três passaram a quatro, recebendo de braços abertos a chegada de Luís Guilherme.

 

Por Vanessa Simões:


 

Por estarmos sozinhos enfrentámos juntos as dificuldades da paternidade e isso fortaleceu-nos como pais e como casal.”

 

1. A decisão de ser mãe em Inglaterra

Eu e o meu marido tínhamos regressado há pouco tempo do Bahrain e estávamos a “fazer um break” quando descobri que estava grávida. A notícia apanhou-nos desprevenidos e depois de refletirmos, decidimos que o melhor seria ficar junto da família, fosse dos familiares portugueses do lado do meu marido ou no Brasil. Mas a realidade nem sempre vai ao encontro dos nossos desejos e percebemos que as oportunidades eram escassas em ambos os países.

O António começou então a candidatar-se a empregos em Inglaterra, onde já tínhamos vivido e trabalhado. Apanhou o avião várias vezes para vir a entrevistas, até que conseguiu! Nesse momento tomámos consciência de que não iriamos estabilizar tão cedo nem em Portugal nem no Brasil.

 

2. A integração

Apesar do complexo de superioridade britânico face ao resto do mundo, eles têm um sistema de integração muito bom, são sempre educados e disponíveis e tratam bem os estrangeiros. Além disso há muitos grupos de mães, espalhados pelo país, e esses grupos ajudaram-me imenso quando a Aninha ainda era bebé: conheci mães de nacionalidades variadas e fiz amizades que ainda hoje duram. Sinto que a infância da minha filha foi muito rica.

 

3. Sistema Nacional de Saúde – dos cuidados pré-natais ao apoio pediátrico

Longe da família, fora da minha zona de conforto e sem saber o que esperar enquanto mãe de primeira viagem, passei por momentos de grande aflição e ansiedade durante a gravidez. No entanto, a organização do sistema de saúde britânico, o curso de pais que frequentei no próprio hospital, bem como a presença das midwives (parteiras) fizeram-me sentir segura e preparada para o parto e para a maternidade.

Logo depois do nascimento, as parteiras realizam duas visitas a casa para check-up à mãe e ao recém-nascido. Acho essa disponibilidade fantástica, porque após o parto e durante os primeiros meses de vida do bebé sentimo-nos exaustos e cansados. Nessas visitas, não só é dado apoio educativo (através da disponibilização de livros, folhetos e várias informações esclarecedoras sobre o “ser mãe”) como também psicológico.

O apoio pediátrico é feito através de consultas mensais com as parteiras até o bebé completar um ano, data em que é realizada uma consulta mais profunda com uma parteira clínica. A intervenção de um médico pediatra só acontece caso seja identificado alguma complicação mais séria com o bebé.

 

A amamentação em Inglaterra não só é bem vista, como é encorajada. Podemos amamentar em locais públicos sem nos sentirmos envergonhadas, o que não acontece em Portugal”

 

4. Contacto com as famílias portuguesa e brasileira

O estar longe da família é muito difícil e traz-nos alguma tristeza… Para combater a distância utilizamos o whatsapp praticamente todos os dias e sempre que podemos viajamos até Portugal – pelo menos duas vezes por ano – e até ao Brasil – no mínimo uma vez a cada ano e meio. Consideramos estes contactos muito importantes para que os nossos filhos cresçam desenvolvendo uma ligação assídua e cúmplice com os avós, tios e primas. Estimulámos sempre essa relação com a Ana e o mesmo faremos com o Luís Guilherme. A família é muito importante para nós e, mesmo à distância, fazemos o possível para estarmos presentes.

 

Quando perguntam a nacionalidade à minha filha, ela diz sempre que é brasileira e portuguesa. Revê-se nas nacionalidades dos pais.”

5. Licença de maternidade

Quando a Ana Carolina nasceu ainda não tinha emprego, pelo que tive a oportunidade de me dedicar a 100% ao meu bebé e a esta nova e encantadora viagem pelo mundo da maternidade durante o seu primeiro ano de vida! A licença de maternidade em Inglaterra pode ir até às 52 semanas, sendo a mesma parcialmente paga até um máximo de 39 semanas: as seis primeiras pagas pelo estado a 90% do valor semanal recebido; e 33 semanas adicionais, pagas a 90% do valor semanal desde que este não ultrapasse os £140,98.

 

pais pelo mundo - inglaterra

6. Aprendizagem das línguas

O processo de aprendizagem do português e do inglês foi feito em paralelo. No entanto, como em casa falamos sempre em português, esta acabou por ser a língua na qual as primeiras palavras foram ditas, claro que com duas acentuações diferentes: mamã e mamãe; papá e papai; banana; água… Curiosamente “bye bye” foi a primeira palavra inglesa que tanto a Ana Carolina como o Luís Guilherme disseram!

Com o filho mais novo, como já vivíamos em Inglaterra há seis anos, acabei por cantar algumas músicas de embalar em inglês também.  Twinkle Twinkle Little Star é a sua preferida!

 

7. Educação

Até agora o sistema de ensino inglês tem-nos surpreendido pela positiva, sobretudo por duas razões: o facto de cada sala de aula ser assistida por dois professores, o que permite um melhor acompanhamento dos alunos; e o facto das crianças serem divididas por níveis de aptidão, permitindo que as que têm maior capacidade de aprendizagem sejam inseridas num grupo com um ritmo de ensino mais acelerado.

Por outro lado, a multiculturalidade é visível em ambiente escolar, o que leva as crianças a lidar e a respeitar as diferenças culturais com grande naturalidade. Constato isso diariamente com a Ana Carolina que, apesar de manter um forte sentido de identidade, é muito flexível e recetiva ao que lhe é diferente.

 

8. Passeios e atividades culturais  

Em Inglaterra há muito mais atividades culturais gratuitas do que em Portugal. Todos os meses vamos a parques, museus e sítios históricos. Os museus realizam atividades durante todo o mês com temas diferenciados e de acordo com o calendário. Há uma forte preocupação com as famílias e isso repercute-se nas ações que são organizadas.

pais pelo mundo - inglaterra

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9. Conjugação da vida profissional com a vida pessoal

Neste ponto, Inglaterra bate de frente com a realidade portuguesa. Trabalhar mais horas do que suposto não só não é bem visto, como é um sinal de falta de competência. O trabalho por norma acaba às 17h/18h e todos os colaboradores terminam o seu dia em termos profissionais. Isto é também um sinal do quanto a cultura inglesa valoriza a vida pessoal e as relações familiares de cada um.

 

Estamos a gostar bastante de viver em Inglaterra, mas não pretendemos aqui ficar muito mais tempo. Após o Brexit, o estilo de vida sofreu alterações e já não nos sentimos tão integrados como antes.”