parentalidade na colômbia

15 dias após o nascimento da sua primeira filha, Diana Cavaco recebeu uma notícia que iria mudar drasticamente o rumo da sua vida: o seu marido fora convidado a ingressar num processo de recrutamento para Medellín, na Colômbia.

Por diversas vezes falaram sobre a possibilidade de viver no estrangeiro, mas sempre enquanto casal e apenas enquanto os filhos não chegassem… Com alguma ironia, é com o nascimento da primeira filha que a oportunidade profissional surge! Agarram-na. Diana deixa assim todo o apoio e conforto familiar que o nosso país proporcionava. Deixa também uma carreira promissora na área financeira. Mas parte, com a inabalável certeza de que não conseguiria viver com um oceano a separá-la do seu marido, namorado desde os 15 anos e pai da sua princesa!

Diana. Tiago. Carminho. Pilar – que viria a nascer, dois anos mais tarde, já em solo colombiano. Esta é a história de uma família portuguesa escrita pela mão da própria Diana, que nos revela os principais desafios ao partir para um país desconhecido com uma filha bebé nos braços e connosco partilha os factos mais surpreendentes sobre o exercício da parentalidade neste país.

 

Por Diana Cavaco:


Sair de Portugal foi uma das melhores decisões que tomámos. A experiência de viver no estrangeiro é muito enriquecedora, tanto ao nível familiar como pessoal.

 

1. A decisão de ser mãe a tempo inteiro

Nunca esteve nos meus planos poder dedicar-me tanto ao papel de mãe. A oportunidade de viver fora, permitiu-me usufruir e desfrutar das minhas filhas como nunca pensei ser possível. Quando viemos para a Colômbia, a Carminho tinha 5 meses e eu estava ainda de licença de maternidade. Foi essa a minha “sorte”, porque de outra maneira ter-me-ia sido muito difícil deixar o trabalho que tanto gostava e a própria empresa onde trabalhava. Na altura ainda julguei conseguir trabalhar na Colômbia, mas a questão dos vistos não me permitiu.

Analisando em retrospetiva, as minhas prioridades mudaram completamente e vejo que toda a dedicação à família é compensada diariamente pelo amor que recebo. Poder assistir ao crescimento e desenvolvimento de um filho durante, pelo menos, o primeiro ano parece-me agora indispensável!

Não estando a trabalhar não usufruí de licença de maternidade quando a Pilar nasceu. No entanto, a licença aqui na Colômbia aumentou recentemente de 14 para 18 semanas, com remuneração a 100%. A lei contempla ainda a possibilidade de a mãe tirar a semana que antecede o nascimento do filho, a qual poderá ser estendida a duas no caso de nascimento múltiplo.

 

2. O parto

 

Os nomes das minhas duas filhas foram decididos no bloco de parto! Eu e o meu marido estivemos sempre desalinhados e a decisão foi adiada até ao último momento. O nome da Pilar foi influenciado por estarmos a viver na Colômbia. Optámos por um nome mais espanhol, que marcasse a nossa passagem pelo estrangeiro!

 

mãe na colômbia - parto

A Pilar nasceu numa clínica privada, onde tinha sido já seguida durante a gravidez. O parto foi surpreendentemente rápido… talvez por isso, e por estar especialmente nervosa, não tive tempo de desfrutar do momento como no nascimento da minha primeira filha – a Carminho nasceu no hospital de Cascais e o trabalho de parto foi maravilhoso!

A minha médica esteve presente e foi muito atenciosa e disponível. Contei também com a presença do meu marido a tempo inteiro – na Colômbia, apesar dos pais poderem assistir ao nascimento dos seus filhos, algumas clínicas privadas exigem a realização de um mini curso de preparação para o parto.

O que mais estranhei foi a obrigatoriedade de se permanecer na clínica/hospital apenas por 12 horas após o parto, seja natural ou cesariana. Por isso na manhã seguinte tive logo alta! Foi estranho, mas a verdade é que soube muito bem ir para casa, onde contei com a ajuda da minha mãe. Tive também, e em permanência, o apoio da minha médica, com chamadas frequentes durante a primeira semana, e da pediatra, sempre disponível por telemóvel/whatsapp.

 

3. Da quarentena ao gymboree

Na Colômbia, defende-se muito a quarentena da mãe e sobretudo do recém-nascido no pós-parto. Até tomarem as vacinas dos 2 meses, as mães são muito cautelosas na saída de casa com os seus bebés, chegando a optar por não sair de todo. No entanto, a nossa pediatra, à semelhança dos pediatras portugueses, era a favor dos passeios desde que com os cuidados necessários a ter com um recém-nascido. É muito normal, durante este período, as mães contratarem enfermeiras a tempo inteiro para ajudar a cuidar do bebé.

Após a “quarentena”, e sobretudo a partir dos 3 meses, é muito incentivada a frequência de aulas de estimulação precoce, como o gymboree. Existem muitos centros pela cidade, incluindo no próprio centro de saúde.

 

Apesar dos médicos colombianos serem muito defensores da amamentação, a maioria das mães acaba por fazer períodos curtos ou por não amamentar sequer. Julgo que se deve à elevada preocupação com o corpo e à facilidade com que são contratadas enfermeiras, ou niñeras, para cuidar dos seus filhos.

 

4. O transporte dos bebés e crianças

Ao contrário do que acontece em Portugal, e muito por questões económicas, os bebés e as crianças são transportados quase sempre ao colo. No carro, o colo prevalece às cadeirinhas. Quando se passeia a pé, os métodos de eleição para os locais são o colo e os carrinhos bengala. Já os estrangeiros, é frequente transportarem os seus bebés em marsúpios e panos.

Curiosamente, o Método Mãe-Canguru (MMC) foi desenvolvido aqui na Colômbia, no Instituto Materno-Infantil de Bogotá. Este método começou a ser implementado no início dos anos 80, como forma de fazer face à falta de incubadoras e como forma de assistência especializada aos recém-nascidos prematuros e de baixo peso. O MMC permitiria assim que as mães tivessem um contacto contínuo, pele com pele, com os seus bebés, mantendo-os quentes e amamentando-os sempre que necessário.

 

5. O português, o espanhol e o “portunhol”

Quando chegámos à Colômbia, a Carminho tinha apenas 5 meses. Habituei-me, desde os primeiros dias, a pôr músicas infantis espanholas a tocar sempre que estávamos em casa – era a forma de aprendermos as duas a nova língua!

Apesar de eu e o Tiago falarmos sempre em português em casa, com a entrada na escola a Carminho passou a falar sobretudo em espanhol. A mistura e a transição das línguas, sempre que viajamos entre Colômbia e Portugal, deu origem a “saídas” muito engraçadas! Por exemplo, com os seus 2 anos e meio, sempre que íamos levar alguém ao aeroporto, a Carminho pedia repetidamente para ir “en el avión”. Então, numa dessas viagens, o pai diz-lhe que vai comprar uma “boleta” (bilhete) para acompanhar a avó, ao que ela responde muito admirada “voy en borboleta???”.

 

Alimentação na colômbia - diana cavaco

6. A alimentação

Experimentámos tudo o que são pratos típicos da Colômbia e da Antioquia, departamento onde Medellín se situa. Provámos quando aqui chegámos e acabamos por repetir sempre que amigos e familiares portugueses nos visitam. No entanto, em casa, é a comida portuguesa que domina, sempre acompanhada de muita fruta tropical! De cá, apenas adotámos as arepas de mandioca ou as tradicionais de milho ao pequeno-almoço.

Destaco, no entanto, os pequenos-almoços bastante generosos, sempre com ovos e muitas vezes com arroz e feijão. A Bandeja Paisa, que é prato típico da Antioquia, que tem um bocadinho de tudo: arroz, feijão, carne picada, chouriço, morcela, abacate, plátano (banana pão), ovo estrelado e o famoso chicharon (tira de entremeada frita). O Sancocho de 3 carnes (frango, vaca e porco) que é o prato de domingo ou de dias de festa – os colombianos juntam-se em família a fazer fogueiras à porta de casa, nas povoações mais pequenas, ou a cozinhá-lo em parques.

 

7. A importância da vida familiar

Os colombianos são pessoas muito lutadoras e persistentes. Ao mesmo tempo gostam de desfrutar a vida, de descansar e partilhar momentos em família.

O espírito familiar está muito enraizado nos colombianos. Os fins-de-semana, por exemplo, são invariavelmente passados em família, nas “fincas”, afastadas do centro da cidade. Várias vezes tentámos marcar programas de fim-de-semana com amigos locais mas acabámos por perceber que estes dias são como que sagrados para eles!  Os próprios feriados na Colômbia são gozados à segunda-feira para conseguirem prolongar os fins-de-semana.

A empresa do meu marido, que é uma multinacional, organiza anualmente o Dia da Família aqui na Colômbia. Neste dia distinguem alguns colaboradores e promovem atividades dirigidas às crianças – é uma celebração que ocorre neste país precisamente pela importância que a família assume social e culturalmente. Outro exemplo surpreendente, é a presença de ambos os pais nas reuniões de escola dos filhos – verifiquei isso em todas as reuniões da Carminho, o que demonstra também este forte vínculo familiar!

Quanto a nós… três anos depois, já com um grupo de amigos maior, percebemos que a nossa família são também os amigos que temos por perto e são eles que nos ajudam sempre que precisamos!

 

8. A escola – deitar cedo e cedo erguer

Se há país que dá bom uso ao ditado popular deitar cedo e cedo erguer é a Colômbia! Para que os horários sejam adaptados às horas do sol: acorda-se normalmente entre as 5h30/6h30; e as crianças são deitadas pelas 19h30/20h. Os colégios começam mais cedo do que em Portugal, às 7h as portas já estão abertas!

O ensino na Colômbia é sobretudo privado. Existe uma oferta alargada de colégios internacionais, onde o bilinguismo – espanhol, inglês – está muito enraizado e, claro, muitos colégios católicos. O processo de admissão é muito exigente e o pedido tem de ser efetuado com bastante antecedência, idealmente ainda na gravidez! Este processo é tão complexo e moroso porque pretendem assim evitar pessoas relacionadas ao narcotráfico. A entrada nos colégios é opcional durante o infantário, mas a partir dos 5 anos passa a ser obrigatório para todas as crianças!

A Carminho entrou na creche com 20 meses e o que mais gostamos na escola que escolhemos é o facto de a aprendizagem ser feita sobretudo através de jogos e brincadeiras, mas também pela leitura. As professoras são todas muito meigas e carinhosas com as crianças.

 

9. Programas e atividades de fim-de-semana

Medellín encontra-se num vale, não é uma cidade plana. Sobretudo no El Poblado (que está numa encosta do vale) são poucas as zonas onde, no dia-a-dia, se pode caminhar.  Por isso, aos fins-de-semana, e para incentivar o exercício físico, são fechadas algumas ruas principais da cidade.

Pais pelo mundo - Colômbia Medellín

Infelizmente ainda são poucos os jardins infantis disponíveis na cidade e as zonas infantis de excelência encontram-se em centros comerciais que dispõem de enormes espaços de diversão para crianças. Nós adoramos ir para o jardim junto ao Museu de Arte Moderno de Medellín (MAMM). Além de ter uma esplanada muito agradável, tem um enorme espaço onde as crianças podem andar de trotinete, bicicleta, correr!

Pais pelo mundo – Colômbia Diana Cavaco

Aproveitamos também os fins-de-semana para passear e visitar outros locais da Colômbia. Adoramos conhecer “pueblos”, em especial Salento na zona do Eje Cafetero. Próximo de Medellín gostamos muito de descansar em Santa Fe de Antioquia – e todas as nossas visitas não escapam ao passeio até Guatapé uma vila muito típica colombiana rodeada de um barragem e até à Piedra El Peñol, um monólito no meio da barragem com 220 metros de altura, com uma vista incrível sobre a barragem.

Mãe na Colômbia - Guatapé

 

10. O Natal

o natal na colômbia - diana cavaco

Em mês de festividades, não poderia deixar de fazer um apontamento sobre o Natal. Os colombianos são um povo de fé, muito religioso, e esta época é celebrada por toda a cidade! O espírito familiar, já tão forte, ganha outro brilho nesta data!

O mês de dezembro é o mês mais especial para os colombianos. A festa começa logo no primeiro dia do mês com a Alborada –  apesar de todas as proibições e alertas face ao perigo e ao número de vítimas que anualmente se registam, a tradição mantém-se e são lançados foguetes em todos os pontos da cidade, durante toda a noite. A partir desta data, acendem-se as luzes de Natal e os famosos Alumbrados Navideños – um espetáculo de luzes que todos os anos aborda uma temática diferente, sempre com figuras alusivas à quadra natalícia.

Desde que aqui chegámos que esta quadra foi sempre celebrada na Colômbia. Não por falta de vontade de o passarmos em Portugal (obviamente!), mas porque o Tiago nunca conseguiu tirar férias suficientes nesta época festiva. Assim, por regra, aproveitávamos para passear os três, agora os quatro. Claro que quando temos visitas, como aconteceu no Natal passado em que a minha sogra aproveitou para conhecer a sua mais recente neta, foi uma festa lá em casa!

 

Fizemos amizades para a vida! E, independentemente de onde o futuro nos levar, espero que as minhas filhas guardem para sempre a simpatia, amabilidade e doçura com que foram tratadas pelos colombianos.