parentalidade no chile - ser mãe no estrangeiro - Inês Mendes

Ser Mãe no estrangeiro, cedo se desenhou como uma possibilidade na vida de Inês. Pelo menos, desde aquele momento, recuando 14 anos atrás, em que decidiu dar um leap of faith e arriscar-se na capital do nosso país vizinho. Quando, com 29 anos, partiu de Lisboa para Madrid, com uma licenciatura em Direito na mão mas de braços abertos ao mundo e às oportunidades que este lhe reservava. Como a própria nos diz é fundamental saber agarrar as oportunidades, mesmo quando nem estamos bem à procura delas

De Lisboa para Madrid. De Madrid para São Paulo. De São Paulo para Santiago do Chile. Pelo caminho deixou-se encantar pelo outro lado do charco (também conhecido como Atlântico) e encontrou o seu amor maior – outro lisboeta a residir temporariamente na megametrópole brasileira. Encontros que surpreendem de tão inocentes e simultaneamente tão transformadores de toda uma vida. Neste caso, de quatro vidas: da de Inês, da do seu companheiro Zé e da dos seus dois filhos que viriam a nascer em solo chileno – o Vicente, de três anos e meio, e o Francisco, de 7 meses.

O Chile é o país onde residem há cinco anos e onde a sua vida familiar adquiriu fundações. Santiago do Chile, apesar dos seus cerca de oito milhões de habitantes, tem o seu “quê” de paroquial para quem viveu em São Paulo e representa a promessa cumprida de uma vida mais tranquila, uma vida mais familiar, mais normal até. Inês revela-nos que apesar das dificuldades associadas aos três primeiros meses de estabilização num novo país, a adaptação foi muito fácil e o Chile tem provado ser uma excelente decisão. Como Mãe num país estrangeiro, partilha agora connosco algumas particularidades no exercício da parentalidade neste país. Sendo que a maternidade foi, por si só, uma dupla surpresa:

O que mais me surpreendeu na maternidade foi a coragem que não sabia que tinha. Se não me souber defender, como poderei defender os meus filhos? Tornei-me uma pessoa mais focada e mais assertiva. A outra grande surpresa, é que é possível encontrar sempre mais um bocadinho de energia para continuar.

 

 

Por Inês Mendes:


Criar filhos que venham a ser boas pessoas e bons cidadãos (e cidadãos do mundo!) requer um esforço consciente e muita planificação. Adorava dizer que sou uma espécie de “earth mother” que nunca se enerva, nunca se cansa, e que cria a sua prole longe de consumismos, fomentando a criatividade e a sintonia com o mundo que os rodeia. A ideia é mais ou menos essa, mas sem o filtro de Instagram! Pode parecer um cliché, mas acredito que se educa pelo exemplo. O mais importante é que os nossos filhos vejam como vivemos, como falamos, o que escolhemos, nesse sentido esforço-me muito por ser uma versão melhorada de mim e escolho passar o meu tempo com eles. O maior tempo possível, pois tudo isto é tão transitório.

 

1. O sistema de saúde

O sistema de saúde no Chile é essencialmente privado. Desconta-se 7% do nosso salário para um fundo que pode ser público (sistema FONASA) ou privado (sistema ISAPRE). O seu funcionamento é idêntico ao funcionamento de um seguro de saúde. Em qualquer dos casos o sistema não é redistributivo, aquilo que cada trabalhador desconta vai para o seu plano de saúde. Se tivermos um bom salário, teremos acesso a um bom plano de saúde e se não tivermos um bom salário, teremos acesso a um plano de saúde com menos coberturas. O sistema de pensões no Chile funciona de forma semelhante.

Existe no Chile um Programa de Alimentação Complementar que consiste na entrega de leite em pó às mulheres grávidas desde o primeiro controlo pré natal e posteriormente a todas as crianças desde o nascimento até aos cinco anos de idade, desde que tenham os controles pediátricos em dia. Este programa é universal, não dependendo dos rendimentos da família e é extensível também às mães e crianças do sistema privado. Do que pude averiguar, este programa é executado através dos serviços de saúde das municipalidades (comparáveis às nossas juntas de freguesia). Nunca recorri a este benefício, pois o leite em pó que é entregue através do programa não é o leite em pó recomendado pelo nosso pediatra. Outro beneficio durante a gravidez, consiste no apoio financeiro à saúde dental da gestante. O processo burocrático para obter esses cuidados odontológicos com o preço subsidiado é um parto em si mesmo.

O meu plano de saúde é privado. Durante a minha primeira gravidez foi a comunicação com os médicos mais difícil porque estávamos muito focados em comparar os exames que se fazem no Chile com os exames que se fazem em Portugal. Foi um foco de tensão desnecessário. Pelo menos, no sistema privado, o seguimento da gravidez é muito idêntico ao que se faz na Europa. No final da gravidez a matrona (parteira) assume um papel de destaque. No caso de uma gravidez sem complicações, as últimas consultas de seguimento são feitas com a matrona, que posteriormente nos acompanha no dia do parto, durante a estadia na maternidade e inclusivamente depois de irmos para casa, caso haja alguma complicação ou dificuldades com a amamentação. As consultas com o pediatra são mensais durante o primeiro ano de vida. O plano nacional de vacinação chileno também é idêntico a Portugal.

 

2. Licença de maternidade 

A licença de maternidade no Chile consiste num período pré-natal de seis semanas antes da data prevista para o parto, seguido de um período pós-natal que pode ser usufruído de três formas distintas:

  1. um período ininterrupto de cinco meses e meio com 100% do subsídio de maternidade (24 semanas);
  2. um primeiro período de 12 semanas com 100% do subsídio de maternidade, seguido de um segundo período de 18 semanas com trabalho a tempo parcial e 50% do subsídio de maternidade;
  3. um primeiro período de 12 semanas com 100% do subsídio de maternidade, seguido de um segundo período de 18 semanas com trabalho a tempo parcial, podendo este benefício ser transmitido ao pai a partir da sétima semana do segundo período e a mãe regressar ao trabalho a tempo completo.

 

O subsídio de maternidade tem um teto legal que atualmente é de €2.430, pelo que dependendo do nível salarial da mãe poderá ou não cobrir 100% do seu salário. Eu optei pela opção a) em ambas as minhas licenças, para  poder ficar a tempo inteiro com os meus filhos e no final ainda juntei dias de férias para completar os seis meses com eles. Na empresa onde trabalho, muitas colegas optaram pela opção b).

Existe no Chile a figura do fuero maternal que consiste na proteção laboral das mulheres por um período de dois anos a contar do o início da gravidez. É ilegal despedir uma mulher durante esse período.  De igual modo, depois de regressar ao trabalho e até a criança cumprir os dois anos de idade, é permitido às mães beneficiarem de uma hora de amamentação por dia. Na prática as mulheres podem escolher entre chegar uma hora mais tarde ao trabalho, fazer um intervalo de almoço maior ou sair uma hora mais cedo até o bebé cumprir os dois anos de idade. Eu optei pela última, sair mais cedo e assim posso ir buscar as crianças à creche sem ter que pagar horas extra.

Dependendo do tamanho da empresa e do número de mães trabalhadoras, podem ainda existir ajudas para a creche (pode ser uma creche de empresa ou o reembolso dos custos com uma creche externa) durante os primeiros dois anos de vida do bebé. Contudo, não é um benefício universal, pois depende do tamanho das empresas, e não é extensível para os pais.

 

3. A escolha dos nomes

 

Queríamos um nome que fizesse sentido em Portugal, sem que isso sinalizasse de imediato os nossos filhos como estrangeiros no Chile.

Os nomes dos nossos filhos foram decididos, em ambos os casos, durante o primeiro trimestre da gravidez. O segundo talvez tenha demorado um pouco mais. O principal critério para a nossa decisão foi que os nomes se escrevessem exatamente da mesma forma em português e em espanhol.

O Vicente foi sempre Vicente. Nem toda a gente sabe que São Vicente é o verdadeiro santo padroeiro de Lisboa. Achámos bonito dar-lhe um nome relacionado com a cidade de origem dos pais e um dia poder contar-lhe a lenda São Vicente e dos corvos. O que foi decisivo para a escolha de Francisco foi a abreviatura que dão ao nome no Chile: Pancho!  No Chile é muito comum o uso de diminutivos para quase todos os nomes. Vicente é Vicho, e Francisco é Pancho. Pareceu-nos que o Vicho e o Pancho iriam formar uma bela dupla.

 

4. A alimentação: da amamentação à gastronomia local

Há no Chile uma grande preocupação em fomentar a amamentação. Na etapa final da gravidez é dada muita informação sobre a amamentação, quer pela matrona, quer nas aulas de preparação ao parto que são organizadas nas maternidades. Durante a estadia na maternidade também senti sempre muito apoio da equipa de enfermagem em ensinar técnicas para facilitar todo o processo e prevenir complicações como, por exemplo, uma mastite. Antes de sair da maternidade é-nos ainda entregue um folheto explicativo com um convite para voltar à maternidade para participar no que por cá chamam clinicas de lactancia que são uma espécie de aulas/workshops. Do que pude observar nestes cinco anos, creio que no Chile é comum amamentar pelo menos até ao sexto mês e nalguns casos até ao primeiro ano de vida do bebé.

Creio que existem algumas diferenças na introdução dos sólidos, pois no Chile começamos pela fruta: pera, maçã e pêssego por volta dos 5-6 meses. Nunca me recomendaram dar papa. Recomendam dar óleo ómega3 (na prática é óleo de peixe) em vez de azeite durante o primeiro ano de vida.

Quanto à alimentação em geral, o Chile tem excelentes ingredientes locais, mas não tem uma tradição culinária muito forte, pelo menos quando comparado com o vizinho Peru. Uma curiosidade que descobri há pouco tempo é que o Chile é o segundo maior consumidor de pão a nível mundial a seguir a Alemanha. No Chile há um pão muito parecido com o nosso papo-seco que se chama marraqueta. Se tivesse de destacar três coisas na gastronomia chilena, seriam elas:

  • As sopas e cazuelas. Não são caldos de verduras à moda portuguesa, mas sopas para comer com garfo e colher! Tem uma batata inteira, um bocado de maçaroca de milho e uma perna de frango inteira. As cazuelas são ligeiramente picantes, pelo que não é fácil pedir uma sopinha do dia para dar ao bebé.
  • O cordeiro da Patagónia, assado aberto numas espadas em cruz. Nunca mais vão querer comer cordeiro assado no forno…
  • E o pan com palta!  Comer pão com abacate é algo entranhado na cultura chilena e transversal a todas as classes sociais. Comer torradas de pão com abacate e queijo fresco para o pequeno-almoço foi um hábito que adoptamos lá em casa.

 

5. Os costumes, as rotinas e os cuidados aos bebés 

No Chile há o costume de rapar o cabelo aos bebés – logo na maternidade vem uma senhora ao quarto oferecer o serviço de peluqueria para o bebé. O meu filho mais velho foi um bebé careca durante muito tempo e várias vezes na rua me perguntaram se lhe tinha mandado rapar o cabelo. “Não, é mesmo careca natural…”. No caso das meninas, também é costume furar as orelhas logo na maternidade. Nas aulas de preparação para o parto, quando nos falam do que levar na mala para o hospital, relembram sempre os brincos para as meninas e até fazem alguma recomendação relativamente ao tipo de brinco que se deve escolher. Outra curiosidade é o facto de no Chile as matronas e os pediatras desaconselharem dar banho aos recém-nascidos até lhes cair o cordão umbilical (até lá é só passar um algodão húmido pelo corpo do bebé).

As rotinas de sono são algo diferentes. Como já referi anteriormente é dada muita importância à amamentação no Chile.  É comum as mães dormirem com o bebé num quarto à parte enquanto estão a amamentar de noite. Os casais dormem em quartos separados nos primeiros meses de vida do bebé. Mais à frente, quando os miúdos têm dificuldade em adormecer sozinhos, vão dormir na cama dos pais. É uma conversa comum entre colegas de trabalho, alguém queixar-se de que não dormiu nada na noite anterior porque o filho veio dormir para a cama dos pais.

No que respeita ao cuidado das crianças, os chilenos preferem ter os bebés em casa com a mãe ou com uma ama (a nana) até cumprirem 1-2 anos de idade.  Apesar desta prática, eu estive em lista de espera na minha creche de eleição e fui à entrevista ainda estava grávida. No Chile há muitas crianças.

 

O que mais me surpreendeu positivamente na experiência da parentalidade no Chile foi o facto das crianças ocuparem o espaço público em conjunto com os adultos. Habituamo-nos a ver crianças nos parques, nos mercados, nas repartições públicas, bebés de colo no metro, nos restaurantes. Todos os restaurantes têm cadeiras para bebés. Às vezes até faltam.

Em qualquer restaurante em Santiago ou nalgum lugar mais remoto do país é comum contar uma média de três carrinhos de bebé na sala, mais as crianças que já se sentam à mesa. É muito comum ver famílias a viajar dentro do Chile com crianças pequenas. Quando falo com portugueses, sobretudo com aqueles que moram em Portugal, fico sempre com a impressão de que há uma grande pressão social para os pais fazerem a vida que faziam antes de terem os filhos, para socializarem sem os filhos. Sei que pode parecer uma afirmação polémica, mas creio que a sociedade é mais inclusiva para com as crianças no Chile. Uma resposta comum no questionário de boas vindas da empresa em que os colegas novos se apresentam, é dizer que os hobbies são, por exemplo: “ouvir música e passear com a família”.

 

 

6. Bons parques e inúmeras atividades infantis

Os chilenos gostam de passar o seu tempo livre em família e de preferência ao ar livre. A cidade de Santiago tem uma boa oferta de parques, onde no verão é comum fazer-se piqueniques e onde, durante o inverno, se organizam feiras temáticas (gastronomia, artesanato, etc). Ao nível dos bairros, todos dispõem de praças com parques infantis. Devo dizer que a qualidade dos equipamentos disponíveis nos parques infantis em Santiago é melhor do que em Lisboa (comparando bairros equivalentes de classe média alta).

Outra atividade popular é fazer caminhadas nos cerros (Santiago está rodeado pelas cordilheiras dos Andes e Costanera). Mesmo quando se trata de viajar para fora de Santiago, boa parte dos programas envolvem algum tipo de caminhada. A beleza do Chile é a sua natureza, as suas paisagens, não é uma riqueza patrimonial de monumentos antigos como é o caso muitas vezes quando se viaja pela Europa. Se vivêssemos em Portugal, creio que nunca teríamos sentido a necessidade de comprar uma cadeirinha para transportar o bebé às cavalitas. No Chile, ser chileno…

Existem inúmeros programas para crianças durante todo o ano, o difícil é descobri-los, pois não existem muitas publicações que agreguem toda a informação num só lugar. Ao fim de cinco anos a morar por cá já tenho um par de sites que consulto com frequência. Muitas atividades são patrocinadas pela própria municipalidade e são gratuitas. Gostamos em particular da temporada Primavera en las Plazas, em cada sábado de manhã é apresentada uma peça de teatro, conta contos, jogos do mundo ou biblioteca itinerante sempre numa praça diferente. Passei também a seguir algumas companhias de teatro infantil no Facebook, para ficar sempre a saber onde e quando voltarão a atuar.

 

7. As roupas de bebé e criança

Os chilenos privilegiam a praticidade na roupa dos bebés e das crianças. Os fofos e as golinhas com folhos tão populares em Portugal praticamente não existem por aqui. Sandália inglesa, também não. Ténis e crocs para toda a miudagem. As opções são ainda muito marcadas pelo género, rosa para as meninas e azul para os meninos.

As marcas de roupa infantil disponíveis no Chile privilegiam um estilo mais desportivo/outdoor, mesmo para os bebés. Como os chilenos gostam de passar o seu tempo ao ar livre, no campo ou nos parques pela cidade, mesmo os adultos parecem preferir roupa técnica/desportiva aos fins de semana. Durante a semana, a maioria das crianças em idade escolar usa uniforme.

Confesso que não me identifico nem com os fofos dos portugueses, nem com a roupa desportiva dos chilenos. Quando são bebés tento vesti-los com cores mais neutras para fugir à ditadura do azul e quando começam a crescer tento vesti-los como pequenos adultos, com a sua camisa e o seu cardigan. Dou preferência a cores e padrões que nós adultos também usaríamos em vez dos estampados e bonecos mais infantis. As educadoras costumam elogiar e dizem que o Vicente parece um “viejo chico”. Tento fazer uma peregrinação anual à sapataria Lisbonense na baixa de Lisboa para comprar sapatos infantis estilo sandália inglesa.

 

8. A educação

O nosso filho mais velho foi para a creche com seis meses, quando regressei ao trabalho. O mais novo, irá para a mesma creche no início deste ano letivo, que no Chile começa em março. A experiência com a creche tem sido muito positiva. Escolhemos uma creche bilíngue (espanhol/inglês) perto da nossa casa. Preocupava-nos, não tanto o ensino de inglês aos bebés, mas que as educadoras estivessem sensibilizadas para a realidade de uma criança verdadeiramente bilíngue. Tínhamos ouvido histórias de outros pais a quem lhes tinha sido dito na escola para não falarem em português com os filhos porque estavam a atrasar a aprendizagem do espanhol. Não queríamos essa filosofia. Esta creche tem uma boa percentagem de crianças estrangeiras que falam outra língua em casa e por isso sentimos sempre uma grande compreensão por parte da creche na nossa decisão de lhe transmitir o português em casa e de ele aprender o espanhol e o inglês na escola. Culturalmente, creio que os chilenos são carinhosos com as crianças e isso nota-se na relação do meu filho com as educadoras.

A partir dos quatro anos de idade as crianças transitam da creche para a pré-primária que aqui se chama prekinder. No caso das escolas privadas, o processo de seleção começa um ano antes e é bastante competitivo. Recomendam que os pais se candidatem a, pelo menos, três escolas para aumentar as possibilidades de seleção. O processo consiste numa mistura de entrevistas com os pais, cartas de recomendação e períodos de observação das crianças ao longo de várias sessões de jogo dirigido.

A transmissão da língua e da cultura portuguesas é também um desafio. Há aqui muito trabalho de casa para os pais no estrangeiro. Da minha experiência, creio que falar só português em casa não é suficiente. Nós tratamos também de socializar com outras famílias portuguesas no Chile para fomentar que as crianças possam brincar em português. Trato de trazer sempre imensos livros em português das nossas visitas a Portugal. Contudo, é importante que haja um bom nível de compreensão auditiva da língua antes de se começar a alfabetização da criança. Apercebi-me com o meu filho mais velho de que a sua compreensão auditiva era diferente consoante se fala com ele presencialmente ou se está a ouvir notícias (ou o Governo Sombra!) no computador. Uma palavra de destaque ao trabalho da Rádio Miúdos – a primeira Rádio para crianças em Português  e do podcast Ao Som das Histórias da Biblioteca Municipal de Ílhavo.

 

9. As viagens

Cá em casa acreditamos que viajar é uma forma de educar tão importante como a educação tradicional. Continuámos a viajar com as crianças, mas mais devagarinho. A América Latina pode colocar alguns desafios relativamente à definição do que é um destino baby friendly. Para nós é uma mistura do nível de esforço físico, segurança, segurança alimentar e qualidade da água, e acessibilidade/isolamento. Por enquanto, destinos como as Galápagos ou o Salar do Uyuni vão ter de esperar… Começamos sempre com destinos dentro do Chile, com voos mais curtos e vamos aumentando distâncias pouco a pouco. Com o Vicente visitámos a Ilha da Páscoa e a Patagónia, Buenos Aires e Bogotá. Com o Vicente e o Francisco, fomos já à região de Pisco Elqui no norte do Chile, a Lima e esperamos voltar a Buenos Aires para tirar o retrato junto à estátua da Mafalda em San Telmo.

10. Os chilenos

Como descrever os chilenos? Vivem do outro lado do mundo, mas são surpreendentemente parecidos com os portugueses. Um tanto desconfiados, um tanto sisudos. Um pouco pãozinho sem sal quando comparados com os outros latinos (os da Europa no nosso caso e os Latinoamericanos no caso deles). Têm certa reverência por estruturas hierárquicas, o que se deve, creio, em ambos os países, às respectivas experiências com a ditadura. Contudo, uma vez passada essa barreira inicial, são muito calorosos e acolhedores. Dão muita importância à família e têm uma rede de amigos e contatos que mantêm da época do colégio. Têm muito enraizada a ideia de que vivem no fim do mundo e mostram muita curiosidade pelos costumes dos estrangeiros que têm a oportunidade de conhecer.

Aquilo que mais admiro nos chilenos e que espero que os meus filhos absorvam do seu país de nascimento é uma certa teimosia, uma atitude de não baixar os braços nunca que lhes dá a capacidade de voltar a erguer-se em face da adversidade, de voltar a começar as vezes que forem precisas.