Pais em Movimento - Pai fotógrafo - Entrevista Ricardo Bravo

O mar. Sempre o mar… onde tudo começou e onde tudo se desenrola na vida de Ricardo. Ainda não tinha filhas, mulher ou máquina fotográfica e já a sua relação com o mar se antevia para a vida. Aos 13 anos mergulhou pela primeira vez nas águas frias da nossa costa com uma prancha de bodyboard, aos 16 arriscou-se com uma câmara fotográfica descartável à prova de água para captar esses momentos. Gosto de estar no mar, de olhar para o mar e de conhecer cidades – a simplicidade das suas palavras transporta a multiplicidade de perspetivas que um olhar de fotógrafo alcança e que nos devolve artisticamente através da fotografia.

Hoje com 42 anos, já casado e com duas filhas, assume que toda a sua vida foi organizada em função do mar. E poderia ser de outra forma para um fotógrafo profissional de surf, praticante de bodyboard e bodysurf e, acima de tudo, apaixonado por esta força oceânica? Em trabalho leva sempre consigo as suas melhores máquinas e objetivas, em lazer faz-se acompanhar dos seus maiores tesouros – as suas filhas e esposa (todas M) – como o mesmo M de Mar.

Nesta entrevista, Ricardo explica-nos as particularidades de se ser pai fotógrafo: a atividade fotográfica na história familiar; a fotografia como objeto recreativo; a conjugação da vida pessoal e profissional; e ainda a influência desta atividade no exercício da parentalidade.

 

Com Ricardo Bravo:


As crianças têm a capacidade de olhar para uma fotografia
e descobrir formas e histórias que um adulto não vê.

 

Pai de duas meninas, uma de 3 e outra de 7 anos. Como encaras este papel?
Para mim ser pai passa por ensinar e aprender com os filhos – descobertas em ambos os sentidos!  A parentalidade torna-nos mais completos enquanto seres humanos. Não há curso que nos ensine a ser pais, somos uns completos ignorantes, tudo se baseia nos nossos instintos e numa aprendizagem diária. Acho isso muito interessante e verdadeiro. Por mais teorias que se criem, cada ser humano que nasce é único e diferente e só assumindo isso é que o podemos compreender. Talvez seja essa a minha teoria…

Pai fotógrafo - Entrevista Ricardo Bravo

E a fotografia, o que representa para ti?
Para mim fotografar é comunicar, logo uma boa fotografia será aquela que comunica algo, que provoca uma reação. Não encaro o ato de fotografar como uma missão, mas antes uma necessidade de registar e comunicar.

A fotografia enquanto atividade profissional já fazia parte da história da família Bravo Santos ou foste um estreante?
Julgo que o meu avô paterno se interessava pelo tema, mas não tenho ideia de haver fotógrafos profissionais na família.

Ser fotógrafo integrou o teu imaginário infantil?
Enquanto criança não, foi mais uma descoberta de final de adolescência. Teve um bocado a ver com o bodyboard, a dada altura senti necessidade de registar aqueles momentos. Mas também gostava de fotografar os colegas da escola. Curiosamente, a primeira vez que vi uma fotografia tirada por mim numa revista, foi na Bodyboard Portugal, na secção das cartas dos leitores – uma fotografia que tirei ao meu irmão a descer uma onda, com uma máquina descartável à prova de água.

Sentiste o “click” quando tiraste a tua primeira fotografia?
Não senti click nenhum. Não acredito em clicks – que ironia – mas antes em processos progressivos de descoberta e a fotografia foi, e ainda é, um processo em construção. Há dias em que sou extremamente feliz enquanto fotógrafo, outros em que não faz sentido nenhum… Às vezes penso em parar de fotografar durante uns tempos, uns meses, mas nunca fui capaz.

Pai fotógrafo - Entrevista Ricardo BravoSendo a fotografia o teu objeto de trabalho, conta-nos como é que ela entra em contexto familiar. És pai fotógrafo a tempo inteiro?
Sim… não é constante, mas por norma tenho uma boa câmara comigo, ainda que muitas vezes acabe por não a usar. A presença de uma câmara tem sempre o seu quê de intrusivo, que provoca uma mudança de comportamentos e por consequência de alteração do rumo dos acontecimentos, e isso às vezes incomoda-me. Outras vezes tudo flui e é como se a câmara não estivesse lá.

E quais são as expectativas familiares relativamente à captação fotográfica em dias aniversários, Natal, passagens de ano?
Gosto de fotografar como me apetece e nessas situações o que esperam de nós é que sigamos um determinado “guião”.  Pessoalmente, prefiro ter uma fotografia especial desses momentos do que muitas.

Fotografaste o nascimento das tuas filhas?
Fotografei o nascimento das duas. Não com o cuidado e atenção que imaginei, porque estava demasiado preocupado com o bem estar da minha mulher. Os dois partos foram complicados e a fotografia teve que passar para segundo plano.

Em casa, dominam as fotos de mar ou as de família?
É uma mistura e por insistência da minha mulher. Não tenho grande vontade de conviver diariamente com as minhas fotografias, especialmente as de mar. Parece-me algo demasiado umbiguista e cansativo. Acho que convivo melhor com as da família.

Como se conjuga a vida de um fotógrafo freelancer com a vida familiar – trabalho com horários incertos, períodos prolongados fora de casa, etc?
É preciso alguma “ginástica”, até porque a minha mulher também trabalha por conta própria, mas sempre tive a capacidade de relativizar essas questões e tento passar isso para as minhas filhas. Umas vezes tenho tempo, outras não. Muitas vezes preciso de trabalhar à noite, ou tenho que sair de madrugada e não as vejo de manhã, ou  tenho fins-de-semana preenchidos e ou até mesmo viagens que podem durar uma ou duas semanas… no entanto, noutras alturas, tenho mais tempo para elas do que um pai com um emprego “normal” e nessas alturas acordo mais cedo para preparar um pequeno almoço especial, levo-as à escola de bicicleta, levo-as à natação e à ginástica, vou com a mais pequena ao mercado a meio da semana sem pressa de chegar à escola… Ainda na semana passada peguei na minha filha mais velha e fomos jantar fora só os dois, a uma quinta-feira, depois de um dia longuíssimo para ambos, entre trabalho, escola e atividades extracurriculares. O bom senso diria para irmos para casa cedo, jantar e descansar, mas aquelas duas horas de atenção só para ela, para conversarmos com tempo, são valiosíssimas e acredito que compensam plenamente as ausências provocadas pelo trabalho. Uma vez um pediatra disse-nos isso: dêem-lhes o vosso tempo quando elas menos esperam.

E nos dias especiais?
Para algumas famílias esses momentos são fulcrais, e acho que de uma forma ou outra são importantes para toda a gente, mas interessa-me mais o equilíbrio do dia-a-dia e momentos que não estão no calendário.

Pai fotógrafo - Entrevista Ricardo Bravo

Algum momento em que, estando a trabalhar, o teu coração tenha estado bem longe do foco da objetiva?
Após o nascimento das minhas duas filhas, ainda elas tinham poucos meses, tive de  me ausentar em trabalho. Foi complicado para a minha mulher e a mim custou-me  por ser uma fase em que só queremos estar perto deles e sentir aquele cheiro maravilhoso, é tudo muito carnal, animal… Ainda assim quando estou a fotografar consigo desligar. Ao final do dia, quando estou a editar no computador e já não é aquela adrenalina, é que as saudades apertam e vem aquele nó na garganta.

As tuas filhas costumam presenciar essa componente do teu trabalho que se prolonga para lá da captação fotográfica – edição, preparação de exposições, etc?
Evito fazê-lo ao pé delas. Preciso de estar concentrado e quanto menos distrações tiver, mais depressa termino o trabalho e mais tempo de qualidade posso passar com elas. A mais velha às vezes ajuda-me em trabalhos de estúdio e gosta de participar a montar as luzes, etc. Se fizer uma exposição, aí sim, faço questão que a família esteja presente na inauguração e gosto de saber o que elas acham do trabalho exposto, até porque as crianças têm a capacidade de olhar para uma fotografia e descobrir formas e histórias que um adulto não vê. A minha mulher participa bastante nas várias fases deste processo e valorizo a sua opinião tanto ao nível criativo como comercial.

Pai fotógrafo - Entrevista a Ricardo Bravo

Sentes que a tua atividade influencia os gostos e interesses das tuas filhas?
Acho que é inevitável essa influência. Para além da vida de praia, também fazemos uma vida mais urbana com idas a museus, conhecer novas cidades, para ver exposições, mesmo aquelas que à partida seriam uma “seca” para crianças. Acho muito importante o contacto com a natureza e com as mais diversas formas de arte.

Pai fotógrafo - Entrevista Ricardo Bravo


Os valores que lhes passas de alguma forma são motivados pela tua atividade artística e pelo teu contexto profissional?
Alguns sim, como a ligação à natureza e em particular ao mar. Acho que a forma mais eficaz de passarmos valores aos nossos filhos é pelo exemplo e é o que tento fazer. Sendo raparigas, tenho um cuidado especial em dar-lhes as ferramentas necessárias para que se sintam seguras e fortes, não se deixando inferiorizar pelos rapazes. Quem tem filhas em idade escolar sabe que a nossa sociedade ainda é marcadamente machista e que muitos comportamentos são aceites como normais em vez de serem claramente censurados. Aos 6/7 anos, na escola primária, há rapazes que acham que podem apalpar uma rapariga só porque lhes apetece – isto não acontece por acaso, é consequência de contextos familiares onde as mulheres são submissas em relação aos homens. Já foi pior, mas ainda há muito para mudar e são processos lentos…

Alguma máxima que te mova e que faças por passar à próxima geração?
Não tenho uma máxima, tento fazer aquilo que gosto sem que isso me torne demasiado egoísta ou perturbe quem está à minha volta. É um desafio.

Qual a foto que melhor espelha a vossa dinâmica familiar?
Não tenho uma foto só,  há algumas especiais… como uma série de imagens tiradas num final de tarde bonito, em que a nossa família recuperou o equilíbrio que tinha perdido depois do nascimento da minha segunda filha. Ela é uma criança fascinante, com um sentido de humor desarmante e uma personalidade intensa, mas no primeiro ano de vida chorou noite e dia e até aos dois anos não dormiu uma única noite seguida. Quase sem darmos por isso já estávamos todos esgotados e zangados uns com os outros e com a vida… uma pessoa diz “haja saúde” e coisas do género para relativizar, mas é complicado. Até que um dia a nossa casa encheu-se de luz! No sentido literal e figurado. E fiz uma série de imagens que acabei por juntar num pequeno vídeo que partilhei com os amigos mais chegados, para lhes dizer: estamos de volta, está tudo bem. No assunto desse email escrevi “Luz”.

Pai fotógrafo - Entrevista Ricardo BravoPai fotógrafo - Entrevista Ricardo BravoPai fotógrafo - Entrevista Ricardo Bravo

Caso as tuas filhas desejem seguir esta atividade profissional, que conselhos o pai fotógrafo dará?
Os melhores conselhos que lhes posso dar são no sentido de estudarem fotografia e outras formas de arte, para que encarem o ato de fotografar como algo com significado, com profundidade. Não que não possa ser divertido fotografar só porque sim, e esse lado existe, mas no outro lado é que está a paixão…

 


Obrigada Ricardo Bravo! 

P.S.  Não deixem de espreitar o seu portfolio em www.ricardobravo.pt. Podem também acompanhar o seu trabalho fotográfico no Instagram e no Facebook!