Leitura e desenvolvimento infantil - paisalacarte.pt

João Luís Bucho | Post #5
Doutor em Psicologia. Mestre em Criatividade e Inovação

 

 

O ponto, de Peter Reynolds

Resumo:

Neste breve texto, partiremos da análise do conto infantil de Peter Reynolds, “O ponto”, como metáfora reflexiva, para realçar a importância do papel dos pais, dos familiares, dos professores e dos educadores, na promoção da confiança e da auto-estima das suas crianças. Através de uma postura assertiva, empática e amorosa, estimula-se o desenvolvimento integral das crianças. Educar para transformar, através da motivação e da superação dos desafios, através do encorajamento e da aceitação, descobrindo potencialidades e talentos escondidos, promovendo o prazer na leitura.

 

 


Introdução:

Actualmente vivemos num mundo global, sendo a sociedade contemporânea marcada pelo avanço do conhecimento científico e tecnológico, o que leva vários autores a chamar-lhe a sociedade do conhecimento e da informação. A par das grandes conquistas da humanidade, surgem várias desigualdades, crises de valores e demais problemas sociais, políticos e económicos. Embora o avanço tecnológico permite um fluxo de informação e de comunicação entre todos, facilitando a circulação livre da informação e do conhecimento de diversos saberes, contudo assiste-se cada vez mais, a uma maior preocupação nacional e internacional, na divulgação e na promoção de hábitos de leitura, junto da população.

É por demais reconhecido a importância da promoção da literacia literária, junto dos mais novos, contribuindo no desenvolvimento linguístico, assim como na apropriação da dimensão simbólica do mundo, revelando-se num factor fundamental, para assegurar o desenvolvimento integral das crianças, No entanto, a realidade indica-nos que embora muitos valorizem e reconheçam a importância na promoção de hábitos de leitura, junto das crianças, contudo muitos deles, pais e familiares, ainda não o potenciam, junto dos seus filhos.

 


Desenvolvimento:

Ilustração do livro O Ponto

Iniciamos este texto, através da análise ao livro “O ponto”, que conta a história de uma professora que encoraja uma aluna relutante, de uma forma muito criativa.

Perante a proposta de fazer um desenho e face à atitude de resistência da aluna Vera, ao dizer que não sabe desenhar, a professora incentiva-a, fazendo com que esta aceite deixar no papel uma marca. Todo o processo tem o seu inicio através de um simples ponto, num pedaço de papel, como um ponto de partida para o desenho da menina.

Encorajada pela professora, inicia um processo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, que facilita que a sua criatividade possa ser estimulada e desenvolvida, levando-a a inspirar os outros colegas.

Esta obra tem vindo a ganhar cada vez mais, repercussão em contexto educativo em todo o mundo, tendo sido premiada por diversas vezes, encontra-se traduzida em várias línguas, incluindo a portuguesa, pela editora Bruaá, actualmente está recomendado pelo programa LER+ Plano Nacional de Leitura.

Trata-se de um livro de literatura infanto-juvenil, sob a forma de um álbum com imagens e narrativas, que através de uma simples história, do autor e ilustrador Peter H. Reynolds, procura sensibilizar os leitores para a importância do estímulo da criatividade, no desenvolvimento da criança. Através da simples afirmação “faz a tua marca e vê onde ela te leva”, se realça a importância da liberdade do acto criador e criativo, que transforma simples pontos, em verdadeiras obras de arte, que posteriormente são assinadas e molduradas.

De forma geral, podemos afirmar tratar-se de uma obra imprescindível para qualquer biblioteca, para que os pais e os filhos, professores e educadores, possam usufruir da sua leitura, reforçando a ideia de que para superar grandes desafios, bastará apenas uma pequena ajuda, um pequeno empurrão, ou seja um pequeno e simples encorajamento.

Através da narrativa textual e pictórica, nos damos conta das dificuldades, das frustrações e das resistências da pequena Vera, perante a folha em branco e da forma simples e criativa como a sua professora lhe consegue estimular a fantasia, o imaginário e a sua criatividade.

Através da frase “tenta fazer uma marca qualquer e vê onde ela te leva”, consegue-se superar as dificuldades, as resistências, as birras, os constrangimentos, e se consegue transformar o difícil em fácil, o vazio em cheio, o ordinário em extraordinário.

Evitam-se os discursos, os sermões, os gritos, os moralismos e até as grandes teorias, e ao invés de se desistir e arranjar falsas desculpas, basta-nos apenas uma simples atitude, a nossa maneira de ser e de agir, desta forma conseguimos descobrir os inumeráveis talentos escondidos, estimulando o espirito de descoberta, reconhecendo-se em cada um de nós o potencial criativo, transformador e inovador, tornando-nos seres mais responsáveis, confiantes, criadores e criativos.

Como se observa, um pequeno pormenor poderá fazer a diferença, daí ser importante enfatizar que para superar os grandes desafios, é necessário em primeiro lugar, acreditarmos de que somos capazes!

Com uma atitude de respeito, de disponibilidade e principalmente de aceitação e tolerância pelo outro, neste caso, dos filhos, dos pequenos, se consegue ajudar a superar os mais difíceis desafios que o simples acto de viver traz associado.

Carl Rogers, na abordagem humanista, encarava a criatividade como algo natural nos seres humanos, sendo que todos nós podemos manter o nosso potencial criativo adormecido, se estivermos inseridos em ambientes que não nos proporcionem a liberdade necessária para o nosso desenvolvimento. Identificou um conjunto de qualidades que o educador deverá possuir para contribuir na educação integral da criança, facilitando a sua aprendizagem, tais como, a autenticidade e a aceitação incondicional, a confiança, a atitude positiva, a segurança, a liberdade e a compreensão empática, entre outras (Rogers, 1985).

Como se verifica na leitura do conto, a postura aberta, disponível e de aceitação da professora, ao reconhecer a menina Vera, permitiu que esta pudesse abrir novas portas de descoberta e de exploração criativa, através de um simples ponto, que terminou no reconhecimento e na admiração pública, na exposição. A sua obra foi exposta e alvo de várias referências elogiosas, por parte dos colegas, que lhe diziam que ela era uma verdadeira artista, tornando-se num ponto de estimulação para as outras crianças que afirmavam não saber pintar.

É necessário facilitar as condições favoráveis para que as crianças consigam reconhecer a importância da leitura e possam adquirir o gosto por ler, para isso é necessário a criação de um ambiente seguro, onde a oferta do livro esteja presente e seja prática corrente, nos hábitos da sua família, tornando-se numa parte integrante das rotinas diárias, por parte da criança. Aqui se realça mais uma vez, a importância dos pais e dos educadores, enquanto mediadores, de todo este processo, que oferecem e disponibilizam o livro, sob a forma de jogo, de leitura, de visionamento de imagens.

Através das histórias, dos contos, dos romances, das fábulas, das lendas, dos mitos, das histórias em quadradinhos e da sua leitura podemos criar um universo mágico, onde as crianças e os adultos se podem encontrar, lugares seguros, cheios de vários elementos simbólicos, onde se pode reflectir a relação com a realidade, com a vida. Através da leitura, podemos experimentar diversos papeis, descobrir novas possibilidades sobre determinados temas, reflectir sobre situações do dia-a-dia, individuais, ou colectivas e até mesmo superar medos e desafios mais difíceis.

A leitura de um livro, neste caso junto das crianças, dos seus filhos, revela-se num excelente instrumento pedagógico, que os ajuda a crescer, criando relações afectivas próximas, favorecendo a relação, o vinculo entre a família e convidando-os a interagir, a participar de forma lúdica e expressiva, partilhando experiências.

Nas histórias, nos contos populares, nos contos de fadas, nos romances, nos mitos e nas lendas, toda a narrativa do leitor, a comunicação verbal (a própria voz, o tom, a projecção, a dicção, a entoação), e a comunicação não-verbal (a expressão facial e corporal, os gestos, a mímica, os movimentos), vão desencadear diversas respostas, feedback, nas crianças, permitem-lhe a entrada num mundo de ficção, num mundo onde tudo é permitido, mas também lhe permitem ampliar o conhecimento delas próprias e do mundo envolvente.

Existem diferentes formas de contar, narrar e encerrar uma história, que podem ser efectuados pelos diversos elementos da família. Trata-se do poder projectivo e afectivo de contar /narrar uma história.

As diferentes personagens, em diferentes situações, permitem-lhe vários olhares sobre a temática, de forma reflexiva e criativa. Torna-se num excelente mediador de aprendizagem, podendo assistir à forma como os problemas são resolvidos, ao mesmo tempo que poderá acalmar os seus medos, receios, angústias e até incertezas, típicas da fase de desenvolvimento em que se encontra.

Em relação à natureza reflexiva deste processo, ler estimula a capacidade de organização e elaboração verbal, de sentimentos e a expressão das próprias emoções.

Desta forma, se pode descobrir e conhecer novos lugares, construir e desconstruir, viajando por novos mundos, criando personagens reais e imaginárias, dando-lhes vida e movimento. Assim se abrem novas portas e exploram-se novos espaços, relacionando-os com a sua realidade histórica, social e cultural.

Trata-se de estimular a capacidade de moldar as palavras, da mesma forma como se modela o barro, a argila e estimular uma viagem ao interior de si-mesmo, ao ser verbal, linguístico, ser poético, acesso à condição humana.

Através da mensagem escrita que é lida, atribui-se especial ênfase na forma como é lida, mais importante que o conteúdo do texto, a forma, a maneira como este se lê, revela-se de extrema importância, pois irá desencadear diferentes estados nos espectadores.

Por outro lado, a capacidade imaginativa do leitor, neste caso dos pais, irá provocar que o próprio conto, a história narrada, seja constantemente alterada e reformulada, jogando com a linguagem, vai-lhe dar nova vida, tal como o velho provérbio popular indica: “Quem conta um conto, acrescenta um ponto”.

Ou tal como indica Rodari (2006:80), mesmo com o conto acabado, existe sempre a “possibilidade de um depois”

Trata-se de um discurso, que visa além do desenvolvimento do pensamento critico, a autonomia, a confiança, a reflexão e a partilha, criando uma relação de afecto e de liberdade. Muitos dos discursos relatados pelo leitor, poderão ser posteriormente reeditados pelas crianças.

Segundo Betelheim (1998) o conto estimula vários “insights”, reduz angústias e alimenta esperanças, já que um dos grandes méritos do conto, tem a ver com actuar directamente no inconsciente infantil.

De forma geral, pode-se afirmar que a leitura de um conto, de uma história, de uma fábula, funciona como que um laboratório alquímico, já que as palavras estáticas e formais que se encontram no livro, são criadas e recriadas pelos sujeitos. Ganham vida própria, ganham relevo, uma nova vida, desformatam-se, saltam da narração do leitor e tornam-se vivas, mágicas, envolvendo tudo e todos, neste jogo lúdico, transformador.

Assim se promove o conhecimento e o viver. Sobre este assunto, dois biólogos chilenos, Maturana e Varela (1995), através da biologia do conhecer, afirmam que “conhecer é viver, e viver é conhecer”, realçando que através do diálogo conhecer-viver-conhecer, está directamente relacionado com o modo de nos relacionarmos e organizarmos nessa relação. Não se trata apenas da adaptação ao meio, mas vai mais longe, numa dinâmica circular, o viver-fazer-conhecer na relação, significa ao mesmo tempo, a criação-recriação desse espaço relacional e de outros, e a criação-recriação do sistema em relação, reflectindo-se no encadeamento da acção e da experiência no acto do conhecimento.

O conhecimento aprende-se no presente, no aqui-e-agora, o processo de adquirir conhecimento implica fazer, experimentar as coisas, retendo-as a partir de experiências vivenciadas. Desta forma, pais e educadores deverão estimular a interacção e integração entre as diversas dimensões da criança: cognitiva, afectiva, motora, social, cultural, histórica e até a dimensão sagrada e espiritual, em todo o processo de aprendizagem, considerando o sujeito como um todo.

Se “conhecer é viver, e viver é conhecer” então facilmente se compreende que a actividade de aprender para o ser humano, é tão necessária e inevitável como o facto de se respirar. Todos estamos envolvidos em processos de aprendizagem desde que nascemos até que morremos.

Não podemos fazer a separação entre a vida e o sujeito que a vive. Trata-se de um movimento que não é estático, estando constantemente em renovação. A experiência vivencial, torna-se assim num elemento fundamental em todo este processo, só podendo ser alcançada pelo próprio, o sujeito-educando.

Facilmente entendemos e compreendemos que Educação que afaste a vivência, será uma educação talhada ao fracasso, sem êxito, sem movimento, sem vida, fechada nela própria, estática, já que educar é viver, é agir, é transformar e ser transformado, é construir construindo e reconstruindo, trata-se de um processo criativo em que é permitido e é necessário errar para posteriormente se acertar, numa relação activa, interactiva, interdisciplinar, dinâmica, relacional e dialógica em que todos os intervenientes saem enriquecidos e transformados.

Neste sentido, o livro deverá acompanhar as crianças desde tenra idade, da mesma forma que o biberão é importante, para lhe assegurar a alimentação necessária, o livro é fundamental para o seu desenvolvimento integral e harmonioso, como pessoa. Trata-se de estimular a sua imaginação e criatividade, o seu pensamento crítico, reconhecer o prazer na manipulação dos livros, incentivando a aproximação, o gosto pela leitura e pela escrita e contribuindo desta forma, na promoção da sua literacia, sendo uma tarefa que começa com o nascimento.

Ou dito de uma outra forma, tal como afirma Bastos (1999:285), “a leitura começa muito antes de se saber ler”, realçando-se mais uma vez que o primeiro contexto promotor da leitura é o contexto familiar. Quer isto dizer, que todas as famílias deverão desde cedo, criar hábitos de leitura, junto de seus filhos, disponibilizando tempo e espaço para os colocarem ao colo e lerem histórias, estimulando nestes a vontade de aprender a ler e a descobrir.

Segundo Ramiro Marques (1991:33), o estímulo à leitura é importante para o desenvolvimento da linguagem da criança e para a compreensão do mundo físico e social, assim como para o conhecimento das regras da escrita, na idade pré-escolar.

Voltando ao conto “O ponto”, podemos afirmar que onde existe um ponto, existirá um questionamento, uma pista, um caminho, que pode ser desbravado e explorado, facilitando-se a educação e a aprendizagem das crianças.

Relembramo-nos das palavras poéticas do pintor Kandinsky (1866-1944), que afirmava que tudo começa num ponto, ou do pintor Paul Klee (1879-1940), que afirmava que desenhar é a arte de levar uma linha a dar um passeio.

 


Preparando-me para concluir:

Apelando uma vez mais à reflexão da leitura desta bela e encantadora história do livro “O ponto”, importa realçar a mensagem que traz associada, neste caso a importância dos pais e dos educadores, deixarem e estimularem as crianças a aventurarem-se em várias experiências vivenciais, facilitando nos seus filhos a sua auto-estima e a criatividade.

É fundamental que na família, sejam criados espaços de criatividade e de fantasia, onde se possa estimular a promoção da leitura dos mais novos. É através da participação activa da criança, que a linguagem oral e a escrita emergem e se desenvolvem da melhor forma. Caberá então aos pais, à família, serem mediadores deste processo de aprendizagem, proporcionando espaços e ambientes seguros, acolhedores e confortáveis para a leitura, que motivem a exploração e a manipulação livre dos livros, por parte das crianças.

O livro, deverá ser encarado como um instrumento lúdico, que proporciona enorme prazer e alegria, mas também como um forte recurso pedagógico, que facilita a aprendizagem. A promoção da leitura, de histórias, de contos de fada, de mitos e romances, pode ajudar em muito a tarefa dos pais na educação, auxiliando-os na aproximação entre a realidade e a fantasia, oferecendo-se como um mediador, que permite fazer uma abordagem criativa e reflexiva, sobre variadíssimas temáticas, tais como, os valores, a vida e sobre o viver.

Trata-se de uma excelente metáfora, que poderá ser utilizada para combater a falta de autoconfiança, o medo, os comentários que muitas das vezes as crianças fazem, de “não sou capaz”, “não sei fazer”, sensibilizando os pais e educadores para a importância da aceitação, da valorização, do reconhecimento e do elogio e da sua forma de poder deixar uma marca nas crianças. Assim, se abandonam os medos, as birras, as indecisões, as resistências e em vez de desistirem, passam a confiar neles próprios, nas suas potencialidades e assumem a responsabilidade de deixarem uma marca no mundo.

A marca da sua verdadeira identidade!

Para isso basta acreditarmos de que somos capazes de enfrentar os diversos desafios, as dificuldades apresentadas, somos capazes de nos superarmos a nós próprios, é importante que exista alguém que acredite em nós, que nos ame incondicionalmente e que reconheça o nosso valor, tal como a menina Vera que conseguiu transformar-se e assim conseguiu transitar de uma menina assustada e receosa, para uma verdadeira artista.

Para isso, bastou apenas, a existência de um pequeno ponto!

Em educar para transformar, a existência do ponto faz a diferença, sendo o ponto a presença, a atitude, a postura dos outros, sempre tendo como pano de fundo o amor.

 

A criança que desde muito cedo aprendeu a brincar com o livro irá descobrir nele um amigo para a vida e esse hábito trará, com certeza, repercussões na vida futura”.

[Menezes (2010:50)]

 

 

Referências Bibliográficas:

Bastos, G. (1999). Literatura Infantil e Juvenil. Lisboa: Universidade Aberta

Bettelheim, B. (1998). Psicanálise dos contos de fadas. Lisboa: Bertrand Editora.

Maturana, H. E. & Varela, F. (1995): A árvore do conhecimento. São Paulo: Editorial Psy. Consultado em Janeiro de 2011 em: http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana

Menezes, I. M. S. L. (2010). Hábitos de leitura de alunos dos 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e Impacto na aprendizagem: concepções de alunos, professores e professores bibliotecários. Dissertação de Mestrado em Gestão da Informação e Bibliotecas Escolares. Lisboa: Universidade Aberta.

Ramiro Marques (1991). Ensinar a ler, aprender a ler: um guia para pais e educadores. Lisboa: texto Editora.

Rodari, G. (2006). Gramática da Fantasia. Lisboa: Editorial Caminho.

Rogers, C. (1983). Um jeito de ser. São Paulo: EPU.

 

Fotos de: Picsea; Annie Spratt; Enis Yavuz; Michał Parzuchowski; Ben White;