Metodologias expressivas

João Luís Bucho | Post #1
Doutor em Psicologia. Mestre em Criatividade e Inovação

 

Introdução:

Antes de começar, importa afirmar que é com o máximo orgulho e satisfação com que foi aceite o convite endereçado pela Raquel, em colaborar neste blogue, através da elaboração de alguns textos que se coadunem à temática tratada. Neste sentido, ao longo dos meses será abordado a importância da utilização das técnicas e das metodologias expressivas juntos dos pequenos príncipes, no estimular da fantasia, da imaginação e da criatividade, promovendo uma personalidade sadia, criativa, criadora, integrada e integrativa.

 


Desenvolvimento:

De forma geral e olhando para o dicionário, podemos traduzir a palavra príncipe, como um elemento, membro, chefe da família real, tem a ver com um soberano, um título de nobreza, nalguns países, designa também o primeiro em mérito ou em talento. Desde logo, salta à vista a importância do príncipe, neste caso a importância deste termo para indicar os progenitores, os filhos, os infantes.

Mas afinal eles são importantes, sobreanos, porquê?

Porque é importante o papel dos pais, da família, dos cuidadores, dos educadores e demais agentes, na sua formação integral como pessoa?

Recuando um pouco no tempo, recordamo-nos das sábias palavras do médico, psiquiatra Eric Berne (1910-1970), criador da análise transaccional, que dizia:

Todos nascemos príncipes e princesas, mas às vezes a nossa infância nos transforma em sapos”

Eric Berne

Daqui se realça a importância da infância no desenvolvimento da criança, do príncipe, para que possa desenvolver-se harmoniosamente e não se transforme num animal, num sapo.

Sapo, aqui entendido como um ser acomodado, conformista, passivo, inerte, desajustado, dependente e submisso. Ao invés, o príncipe, será uma criança activa, livre, autónoma, soberana, independente, criadora e criativa por excelência.

Para que isso aconteça é necessário que o meio seja capaz de proporcionar os estímulos necessários para que a educação e formação da criança seja nutritiva, e não autoritária, próxima e afectiva e não invasiva e agressiva e o transforme num pequeno sapo.

Ao falarmos em pequenos príncipes, estamos a falar em seres imaturos, frágeis, desprotegidos, incompletos, em permanente construção, seres que precisam de ser protegidos e ver satisfeitas as suas mais diversas necessidades. Trata-se de uma época, em que inicialmente parece que hibernam, comendo e dormindo, comendo e dormindo, mas que absorvem tudo o que se passa em seu redor. Posteriormente descobrem o choro, como um instrumento de múltiplas funções, mas que revela ser a sua forma de comunicar, de interagir com o mundo exterior, servindo para chamar a atenção dos adultos, para manifestar o seu desconforto, o cansaço, a fome, a agitação, a fralda molhada, as cólicas, as dores, o pedir de colo, entre muitas outras.

A comunicação existe desde muito pequenos, embora não seja efectuada ainda por meio oral, só mais tarde é que surge a linguagem como um sistema de símbolos culturais internalizados, sendo utilizada como forma de comunicação social. Nesta fase, quando a criança nasce, não percebe o que lhe é dito, gradualmente vai atribuindo sentido ao que ouve. Vai ampliando o seu repercutório, vai entendendo o que se passa ao seu redor, à medida em que a produção da linguagem falada evolui.

Podemos referir diversos tipos de linguagens, a corporal, a falada, a escrita e a gráfica. Os pequenos príncipes, como todos nós, são seres comunicantes, e desde cedo começa a comunicar utilizando a linguagem corporal, quer por gestos, mímica, etc, quer depois, mais tarde, pela linguagem falada. É costume fazer-se a classificação em dois estádios: pré-linguístico, quando o bebé ainda usa os gestos, os sons, o choro, para comunicar, e o linguístico, quando usa as palavras.

Toda a interacção com o meio, com a mãe, o pai, os irmãos, os familiares, os educadores é de extrema importância para que que a relação seja consistente e a maturação do desenvolvimento possa ocorrer.

Sem entrarmos em grandes especificidades técnicas, neste primeiro artigo e recorrendo ao psicólogo suiço Jean Piaget (1896-1934), podemos de uma forma geral, dividir as fases de desenvolvimento humano, pelos seguintes estádios:

 

· 1º Período: Sensório-motor, de 0 aos 2 anos

(Fase em que a criança interage com o meio sem representação ou pensamento, precede a linguagem);

· 2º Período: Pré-operatório, 2 aos 7 ou 8 anos

(Estágio das representações mentais, do desenvolvimento dos símbolos, do egocentrismo);

· 3º Período: Operatório-concreto, de 7 ou 8 a 11 ou 12 anos

(Estágio da construção da lógica, da capacidade de relacionar e classificar);

· 4º Período: Operatório-formal, de 11 ou 12 aos 14 anos

(Estágio do raciocínio dedutivo, da formulação de hipóteses, solução de problemas, etc.)

 

Trata-se de quatro períodos que constituem o processo evolutivo da espécie humana, correspondentes a determinadas faixas etárias, caracterizados por diferentes formas de organização mental, que por sua vez lhe permitem relacionar-se, de diferentes maneiras, com a realidade que o rodeia.

Para o psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934), não basta apenas que a criança esteja exposta à interacção social, ela deve estar pronta, no que diz respeito à maturação, desenvolver o(s) estágio(s), para poder compreender o que o meio social lhe poderá fornecer e transmitir.

Os vários teóricos da psicologia de desenvolvimento, apontam e realçam a importância da criança ser estimulada no sentido de desenvolver a curiosidade, a exploração de diferentes brincadeiras, jogos e materiais, facilitando a livre exploração, a ludicidade, o prazer, a alegria na descoberta de novas relações, no questionamento, na construção da realidade. Assim conseguem fazer novas associações, conexões, compreensões, conquistas, descobrem-se a si mesmos, ao seu corpo, ao espaço físico, aos outros, à realidade envolvente. Transformam-se e transformam a realidade.

A criação infantil através do recurso dos mediadores expressivos, criativos, lúdicos, artísticos e não artísticos, como jogos e rituais, permitem que a criança consiga aceder à sua própria interioridade, conseguindo compreender e entender a realidade e o mundo de uma outra forma, acedendo ao jogo e ao pensamento simbólico.

Através da integração das diversas formas de linguagem, verbal e não-verbal, conseguimos facilitar que a criança consiga expressar-se livremente, de forma mais mais autêntica e genuína. Através da livre experimentação, a criança torna-se capaz de criar sem receios, sem medos, facilitando todo o processo de comunicação e de relação.

Para que isto aconteça é necessário que o meio seja facilitador e não repressor, para que a criança tenha a confiança necessária para ser motivada pelo simples acto de brincar, cantar, dançar, riscar, pintar, representar, construir, modelar, conseguindo assim explorar e descobrir. O ambiente deve ser seguro e securizante, continente e protector, facilitado por um técnico com experiência na área.

A infância é um período de grandes descobertas, onde facilmente a criança, o príncipe, poderá transformar-se num vilão, ou num pequeno sapo, que irá ganhar forma, cor, movimento e tamanho, à medida que for crescendo.

Cabe aos pais, aos cuidadores, à família, aos educadores, a difícil tarefa de educar, de assegurar a satisfação das suas diferentes necessidades, de que a sua formação bio-psico-socio-espiritual, seja assegurada da melhor forma.

As crianças são por si só agentes manipuladores, exploradores, curiosos, activos, basta promover acções que facilitem o desabrochar da sua subjectividade, com confiança, sem receios nem inibições e proibições. É a época da descoberta, da brincadeira e do jogo.

metodologias expressivas

A utilização das metodologias expressivas, com este tipo de população crianças, pode ser encarado em termos metafóricos, como uma balança, se de um lado julgamos ter algumas certezas, baseadas na psicologia do desenvolvimento e em estudos de diversos autores, por outro lado, no outro prato da balança e com grande peso, surge o imprevisto, o novo, o original, o diferente, a imaginação criativa, a fantasia, a manipulação, a experimentação, a curiosidade, o questionamento constante, a própria fragilidade e impulsividade, a desconcentração, características tão evidentes do mundo infantil, onde tudo é possível, a terra da fantasia, das bruxas, fadas, duendes, aventuras, desaventuras, cientistas e piratas.

As metodologias expressivas utilizam diversos recursos que visam facilitar a expressão entre a criança e o facilitador, ajudando a criança a expandir as suas potencialidades e recursos disponíveis, para que o seu desenvolvimento decorra de forma harmonioso, saudável e integrado, aumentando a sua auto-estima, confiança, facilitando a sua aprendizagem e o seu desenvolvimento.

Os diferentes mediadores expressivos permitem-lhe ter acesso a um maior número de estimulação e conhecimento sobre o mundo em seu redor. As actividades devem ser apelativas, simples e lúdicas, adequadas aos interesses, necessidades e fase de desenvolvimento das crianças.

Para que nas crianças se estimule as diversas capacidades criativas, é necessário que as experiências que lhes são oferecidas e facilitadas sejam de grande riqueza e diversidade. Devemos ter a precaução, contudo, de assegurar que a diversidade das actividades, assim como dos estímulos oferecidos não seja tão grande, que possam “inundar” a criança de estímulos, sensações, sons, imagens, movimentos, cores, cheiros e demais percepções, deixando-a num estado de sob estimulação, de grande agitação e confusão e ao invés de facilitar, possa até mesmo desorientá-la, amedrontá-la e desorganizá-la.

Tal como nos dizia João dos Santos, citado por Leite & Malpique (1986), o pensamento vive da sua possibilidade de expressão, pela palavra, pelo grafismo, pelo movimento, daí que quanto maior for o número de instrumentos expressivos colocados ao serviço da criança, maiores serão também as suas possibilidades de o seu pensamento se desenvolver, de se exprimir, de se realizar.

Podemos afirmar que a expressão favorece o desenvolvimento integral da criança, possibilitando a manifestação e ampliação do pensamento, das emoções e desenvolvendo o seu raciocínio, com criatividade e imaginação. Através da imaginação, abrem-se as portas da criatividade, já que nos permite inventar, antecipar situações, conceber projectos, sonhar…


Terminando:

Como se conclui, o papel dos pais, dos cuidadores, dos familiares e dos educadores, revela-se extremamente importante para o desenvolvimento sadio e harmonioso da criança. O meio e as experiências por ele proporcionadas irão influenciar a subjectividade, o vir-a-ser, o tornar-se pessoa (Rogers, 1985), do pequeno príncipe.

O espaço familiar, educativo e social, terá de ser um lugar afectivo, acolhedor e seguro, que incentive e estimule o maior número de espaços e tempos de criatividade, abertos e flexíveis, onde a interacção e a troca de experiências seja possível.

Quanto maior for esta interacção, maior será a oferta de estímulos que facilitam a expressão e a criação de todas as habilidades e competências da criança, activando e desenvolvendo todas as inteligências múltiplas (Gardner, 1994).

Tem de ser um espaço, um continente-contentor, que ofereça segurança e alegria, estimulador da curiosidade, da exploração, da fantasia e do imaginário, que contribua na construção de multitalentos, renovador, aberto, universal, vivo, dinâmico, multisensorial, plural e além de tudo o mais, tem obrigatoriamente de ser um ambiente multimodal e ter por base uma relação afectiva próxima, disponível, nutritiva, entre todos os intervenientes.

Antes de terminar e recorrendo às sábias palavras do educador, pedagogo e filósofo Brasileiro, Paulo Freire (1921-1997), que todos nós, pais, educadores, psicólogos, professores e cidadãos comuns, devemos relembrar, importa salientar que:

A educação é um acto de amor e de coragem”

Paulo Freire

 

Por isso não tenham receio, abram o vosso
(Cor+acção) e arrisquem, sejam corajosos!

 

 


Referências

Alves, R. (1997). O medo da sementinha. São Paulo: Paulus.

Gardner, H. (1994). Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. Porto Alegre: Artes Médicas.

Leite, E. & Malpique, M. (1986). Espaços de criatividade. A criança que fomos/a criança que somos através da expressão plástica. Colecção Ser Professor. Porto: Edições Afrontamento.

Piaget, J. A. (1998). A psicologia da criança. Ed Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

Rogers, C. (1985). Tornar-se pessoa. Lisboa: Moraes Editores.

 

Fotos de: Aline Ponce; thejbird